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Celebração á Pai Òsùmàrè 2014

Quarta, 24 Setembro 2014

Celebração á Pai Òsùmàrè 2014

Celebração á Pai Òsùmàrè 2014

No terceiro sábado de agosto, dia 16, a Casa de Òsùmàrè mais uma vez celebrou o seu patrono, a Grande Divindade do Arco Íris. Centenas de devotos, amigos e irmãos viajaram de todos os pontos do Brasil, rumo ao bairro da Federação, no alto da colina, para irmanados com o povo da Bahia, festejar a cerimônia dedicada ao patrono do Ilé Òsùmàrè Araka Asè Ogodo (Casa de Oxumarê). A celebração se destaca no calendário litúrgico, uma vez que, milhares de filhos e filhas deste tradicional Terreiro de Candomblé residem fora do Estado, e por conta de seus empregos que lhes impendem de estarem presentes em todas cerimônias, reservam esta data para prestar louvores aos Òrìsàs.
Uma família unida, que tem como principio amor e dedicação aos Òrìsàs, o respeito a ancestralidade e a preservação das tradições são o pilar central da Casa de Oxumarê. São este valores que mobilizam as principais lideranças das religiões de matriz africana do país a se fazerem presentes, para juntas prestarem louvores aos Òrìsàs. Este colegiado de sacerdotes e sacerdotisas enriquecem a celebração difundindo seus saberes e asé. Este momento é de valor imensurável, pois afirma, de forma contundente , que foi através da união que resistiram até os dias de hoje e através dela perpetuaram esta religião, que de forma significativa contribuiu para resistência do povo negro e identidade cultural do Brasil.
Ainda na aurora do dia 16, os renomados Ògáns do terreiro de Òsùmàrè salvaram a Casa, com a sagrada alvorada, que despertava a todos os presentes com os toques em louvores aos deuses africanos, juntamente com os clarins que anunciavam a presença de seu governante o Òrìsà Òsùmàrè. O mais tradicional adahun da Bahia ecoava em cada espaço sacro evocando todas as divindades e anunciando da forma mais tradicional que a festividade em homenagem ao chefe do terreiro estava aberta. Uma grande queima de fogos saudaram os Òrìsàs, ao tempo que convidava aos Terreiros do entorno e adjacências para celebrarem as divindades. Após a conclusão da alvorada , as Iyawos e Egbon da Casa, foram coletar água para o processo litúrgico e o preparo das comidas sagradas á serem oferecidas aos Òrìsàs. Rumando em procissão e em total silencio da entrada do Terreiro na Av. Vasco da Gama até a Casa onde situa-se os assentos de Pai Òsùmàrè. Para o povo Nàgó, a água energiza, revitaliza e transforma, razão pela qual esse costume é mantido com todo o amor e simbolismo envolto de preceitos desde a colheita da água a entrega da mesma.
Antes de se dar inicio ao café da manhã, imbuídos na comemoração do tombamento da Casa de Oxumarê como Patrimônio Nacional, a Policia Militar do Estado da Bahia foi pela primeira vez a um Terreiro conduzir o hasteamento bandeiras. A solenidade representou um marco para o candomblé, pois também foi considerado um ato simbólico de reparação de uma época que a polícia, em cumprimento das leis, invadia os Terreiros para acabar com as manifestações religiosas de matriz Africana. A ação representou um avanço contra a intolerância religiosa, uma conquista não só para a casa de Oxumarê mas para toda comunidade de Asé.
Foram hasteadas as Bandeiras: da República Federativa do Brasil, do Governo da Bahia, da Casa de Òsùmàre, da Nigéria e da Republica do Benin. Estes Países que dão origem a Casa de Oxumarê. A banda de música da PM tocou a hino nacional brasileiro e o hino 2 de julho e na voz da Ìyá Efun, Egbon Beth de Òsàlá junto com as Agbas, foi entoado o milenar cântico que louva o Patrono do Terreiro, hino da Casa de Oxumarê: "Boyina!!! Joro Joro Awade Kun Jo!!!", a emoção que vibrava nas cordas vocais da Egbon Beth, acompanhada do som dos Sabás , tocava o coração de todos presentes, arrancando-lhes lágrimas e gritos de "Ahoboboy!!! Ahoboboy!!! Ahoboboy!!!". Sem dúvidas, uma imagem que ficará cravada para sempre na memória e coração de toda comunidade. Concluído o hasteamento todos foram convidados por Pai Pecê, a se servirem em uma farta mesa que atravessava toda frente do barracão, acolhia a todos num sinal de comunhão.
Com a chegada da noite, todos já estavam ansiosos para o início do festejo público. As filhas e filhos, amigos, netos, bisnetos se preparavam... O perfume da defumação,misturado com aroma dos banhos de folhas tomava o ar, convidando todos para o Sire de Òsùmàrè – O Ajodun iniciava-se com a Casa abraçando em seu seio, toda a Comunidade do Candomblé. O Adahun acompanhado dos clarins trazia à terra o Pai da Casa para o deleite de todos que aqui estavam. Novamente a emoção pairava no mais que centenário Terreiro de Òsùmàrè. A fé, espelhada em cada lágrima, em cada palma, em cada grito de Ahoboboy emergia de forma plural, contentando-nos e, sobretudo, contentando àqueles que mais importavam - os Òrìsàs.
No domingo, dia 17 de agosto, as pessoas comemoravam com satisfação o cumprimento de mais uma missão com os Òrìsàs. A Banda Olodum veio homenagear a Casa de Oxumarê trazendo seus tambores para o dia de confraternização, também o samba de roda, pisado no chão do Terreiro, batido com as palmas das mãos que trabalharam com esmero para a realização dessa festa, concluía mais um Ajodun, missão cumprida. Maior hierofania de Òsùmàrè cobriu à todos, o arco-íris brilhava na santa Terra de São Salvador, como quem diz: "Meus Filhos, estou olhando e abençoando todos"... Pai Pecê, perguntado sobre a festa, nos falou: "Olha menino, quanta satisfação! Eu tenho muito que agradecer. Agradecer ao meu Pai Òsùmàrè que escolheu minha cabeça e que me escolheu para tomar conta dessa Casa que está aos cuidados da minha família há muito, há muito tempo. Tenho que agradecer todos os meus filhos e descendentes, que ajudaram muito para que essa obrigação acontecesse. Cada pessoa, cada suor, cada contribuição foi de grande importância para fazer essa homenagem ao nosso Pai. É muito gratificante receber todos aqui na nossa Casa e isso só é possível por causa da ajuda de todos, da união dessa grande Família do Asè Òsùmàrè. Aliás, o Òsùmàrè há muito tempo está trabalhando para todo esse processo de união, união dos filhos, união das casas. Então, quando eu paro e vejo gente de todos os lugares, de todas as casas aqui, para ver o Òrìsà eu fico muito contente, sabe. Nesse ano teve uma passagem que me fez refletir bastante e me fez refletir no poder desse Asè plantado. Você sabe em um passado não tão distante, um passado que minha avó viveu, a polícia visitava os Terreiros para acabar com os Candomblés. Você sabe por que os atabaques aqui do Òsùmàrè ficam recuados dentro da parede? Pois quando a polícia chegava, os Ogans daqui fechavam uma espécie de cortina para não levaram os atabaques – esse nosso povo sofreu muita repressão. Então, quando eu vi a Polícia Militar do Estado da Bahia, a mesma polícia entrar no Òsùmàrè para hastear as bandeiras eu realmente me emocionei. Quando eu vi todos aqueles militares, em ordem não somente para ouvir o hino nacional, mas também em ordem, para ouvir o hino do Òsùmàrè eu disse a mim mesmo: meus ancestrais estão felizes, minha avó está feliz, minha mãe Nilzete que batalhou tanto para manter essa Casa com agente pequeno aqui (pausa, Pai Pecê visivelmente emocionado)... elas ajudaram, com certeza elas ajudaram... Esse Asè realmente é muito forte. Tenho que agradecer também ao Batalhão da Polícia Militar que fez esse ato aqui no Òsùmàrè, mas que é uma grande vitória para todo o povo de santo. Que Òsùmàrè mesmo cuide de todos, que ele mesmo jamais deixe faltar nada e que ele traga paz, paz entre os povos, paz entre as religiões, paz no mundo".