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Comunidade da Casa de Òsùmàrè aponta equívocos em DVD que retrata a “Orquestra do Candomblé”

Sexta, 26 Abril 2013

Comunidade da Casa de Òsùmàrè aponta equívocos em DVD que retrata a “Orquestra do Candomblé”

Reconhecido nacionalmente como um dos principais terreiros de nação Kétu a preservar os cânticos e toques sagrados de origem africana, a Casa de Òsùmàrè foi convidada para participar da pesquisa da Oficina de Investigação Musical – OIM. A princípio, o projeto tinha como plausível mote, a disseminação e preservação dos sagrados toques da cultura afro-brasileira, por meio de aulas à comunidade.

Ao longo do tempo, o projeto inicial sofreu alterações significativas, culminando na idealização de um documentário visando retratar os toques de atabaque utilizados no Candomblé de origem Kétu-Nàgó. Os idealizadores Bira Reis e Hank Schroy, contaram com a colaboração dos Ògáns da Casa de Òsùmàrè; Valnei Silva, Nilvaci Ribeiro, Neicivaldo Ribeiro e Marcos Odara.

Dessa forma, nessa semana foi lançado o dvd "A orquestra do Candomblé Nação Ketu", que elucida passo à passo, como devem ser executados cada ritmo em homenagem aos Òrìsàs."Acredito que devemos multiplicar o nosso conhecimento, mas é preciso ter cautela e atenção nas mensagens que estamos transmitindo. Quando fui sondado sobre a possibilidade em autorizar as gravações, hesitei, afinal, somos uma Casa matricial e temos o compromisso de transmitir com responsabilidade e ética, o conhecimento litúrgico que herdamos dos nossos ancestrais, por isso, o meu cuidado e preocupação", explica o Babalòrìsà da Casa de Òsùmàrè, Babá Pecê.

Mesmo resultando em um belo trabalho no que tange as questões plásticas/técnicas e, com valorosos ensinamentos transmitidos pelos Ògáns da Casa de Òsùmàrè acerca dos toques do Candomblé, é importante destacar que o referido dvd também apresenta alguns equívocos, conforme aponta o Otun Alagbé do Terreiro e demais membros da nossa comunidade.

"Só vi o material depois de pronto, não participei do processo de edição, portanto, fiquei surpreso quando notei alguns erros que infelizmente foram documentados. Fiquei muito preocupado com a fala de Bira Reis, que diz que o Agere, ritmo utilizado para saudar Òsòósí, é também uma saudação para Caboclos. Desconheço por completo essa informação. Aprendi, no meu Terreiro, que os Caboclos, devem ser muito respeitados como ancestrais donos da terra, porém, o seu culto é distinto do que fazemos para os Òrìsàs, dessa forma, jamais podemos dizer que o Agéré também é usado para essas Divindades", explica Valnei, que aprendeu os cânticos e toques como seu mestre, Erenilton Bispo dos Santos, venerado e respeitado Ògán da Bahia.

Entre os erros apontados pelo Otun Alagbé Valnei Silva, estão os nomes dados aos toques e uso de instrumentos, que geram divergências entre as casas mais antigas. Além disso, as explicações religiosas dadas por Bira Reis, apresentam relevantes equívocos conceituais e religiosos. "Respeito todo o conhecimento do maestro Bira Reis na área musical, mas como Otun Alagbé de uma das Casas mais antigas e tradicionais da Bahia, não posso deixar de dizer que ele fala algumas coisas que não fazem sentido. Como vamos dizer que o ritmo de Ògún e Èsù é o mesmo? São toques diferentes! Infelizmente, só vi o depoimento dele após o dvd ter sido lançado", aponta Valnei.

Em nota divulgada pelo Conselho Religioso do Terreiro, a Casa de Òsùmàrè faz questão de ressaltar que não houve autorização para uso das imagens, bem como, do nome da Casa no aludido registro. Os Ògáns participaram do projeto, por conta própria, acreditando na idoneidade dos demais integrantes e na certeza de que, participariam de todo o processo que resultaria no produto final.

A nota faz ainda referência às explicações fornecidas pelo maestro Bira Reis, que de acordo com o conselho, delineia informações confusas e truncadas. "Não compreendemos as características dos Òrìsàs apresentadas pelo maestro Bira Reis. É preciso que seja dito que cada Terreiro tem a sua doutrina e nós desconhecemos a maior parte das falas e das explicações registradas nesse material", resume anota.

Com o título honorífico de Babá Egbé, o pai da comunidade, LeandroDias, destaca que antes de tudo, é preciso que os adeptos de Candomblé sejam mais atenciosos com os materiais que utilizam para estudar. Salienta ainda que devemos ter muita cautela com o conteúdo e forma como os conceitos e dogmas do Candomblé são transmitidos. "Não podemos nunca nos esquecer de que Candomblé é uma religião fundamentada e edificada no princípio do segredo. Alguns conhecimentos litúrgicos são restritos aos iniciados, não podendo jamais ser participados às pessoas que não possuem o direito, tampouco a compreensão para entendê-los. A transmissão do conhecimento deve ser pautada no merecimento e não visando apenas o lucro", destaca.

O Babá Egbé da Casa de Òsùmàrè explica que a sua inquietação se dá pelos constantes equívocos que estes materiais promovem, muitas vezes deturpando a liturgia, filosofia e dogmas das religiões de matriz africana. Relata que muitos desses materiais, disponibilizados de forma banal, por diversos meios, utilizam indevidamente os nomes de casas tradicionais, apresentando informações que não correspondem com a veracidade dos fatos e com a tradição das respectivas casas.

Ainda assim, consciente que o propósito do documentário foi fazer um resgate sobre a construção cultural das religiões de matrizes africanas e que os erros apontados nas gravações, não constituí uma ofensa ao Candomblé e seus adeptos, o Babalòrìsà da Casa de Òsùmàrè, pondera que não existem grandes problemas na veiculação do aludido documento visual-sonoro, ressalvado, entretanto, que o conteúdo em sua íntegra não pode ser associado às fundamentações religiosasdo Ilé Òsùmàrè Asè Ògódò. "Foi um investimento alto e devemos também levar em conta, a boa intenção dos produtores. Como eu disse, desde o inicio, acredito que tudo que eles quiseram, foi buscar o resgate cultural de uma importante arte, mas que infelizmente, por carência de pessoas com propriedade litúrgica para auxiliar no processo de finalização, gerou equívocos que recaem somente aos produtores", conclui Babá Pecê.

Leia na integra a nota da Casa de Òsùmàrè

Somos conscientes que por muito tempo, a nossa religião sobreviveu por meio da oralidade, o que atesta que ouvir quem tem conhecimento, é a peça chave para aprender os ensinamentos das religiões de matriz africana. Ao mesmo tempo, reconhecemos que com o advento da tecnologia, é importante unir a tradição como moderno, preservando, porém, os nossos conceitos.

Foi acreditando na união do novo com o antigo, que a Casa de Òsùmàrè decidiu conhecer a proposta da Oficina de Investigação Musical – OIM, sobre os principais ritmos do Candomblé. Inicialmente, o projeto tinha a proposta de ministrar aulas sobre os toques e com isso disseminar os conceitos e a culturaafro-brasileira.

A despeito disso, não houve nenhum acordo formal para a participação da Casa de Òsùmàrè no projeto. Os Ògáns participaram do projeto,por conta própria, acreditando na idoneidade dos demais integrantes e na certeza de que participariam de todo o processo que resultaria no produto final, vez que dessa forma, seria possível a equalização entre os conceitos técnicos dos idealizadores com os conhecimentos litúrgicos dos Ògáns, no entanto, isso não ocorreu.

Preocupa-nos, principalmente, as "explicações" apresentadas pelo maestro Bira Reis no bônus do DVD, que de acordo com esse Conselho Religioso, participa aos que assistirem, informações confusas e truncadas que, em momento algum podem ser associadas ao Terreiro de Òsùmàrè. Não compreendemos, por exemplo, as características dos Òrìsàs apresentadas pelo maestro Bira Reis. É preciso que seja dito que cada Terreiro tem a sua doutrina e nós desconhecemos a maior parte das falas e das explicações registradas nesse material. Ademais, alguns dos nomes dados aos toques na contracapa do DVD, divergem dos nomes utilizados na Casa de Òsùmàrè, há mais de um século.

Reconhecemos salutar o registro sonoro executado pelo corpo de Ògáns do Terreiro de Òsùmàrè, o qual reproduz com excelência a herança musical deixada pelos nossos antepassados e, somente por essa razão, não se opõe a comercialização desse material, frisando, por outro lado, que esse Conselho é contrário a quase que totalidade das informações relatadas no mesmo.

Conselho Religioso do Terreiro de Òsùmàrè