Quarta, 04 Novembro 2015

Ética e Moral: Parte II Os Caçadores de Cabeças

Ética e Moral: Parte II Os Caçadores de Cabeças

Hoje, na incessante busca pelo falso prestígio, muitas pessoas ditas Sacerdotes, não se furtam em "caçar cabeças" para poder ostentar uma grandiosa roda de Iyawos/Egbon/Ògáns, nem que para isso, tenham que ignorar a Ética e Moral que deveriam existir entre casas e, sobretudo, entre Sacerdotes.

Mas muitos podem dizer: Um Sacerdote "caçar a cabeça" de alguém? Não são os filhos "rebeldes" que buscam outro terreiro?

Em verdade, as duas situações ocorrem, cremos que a primeira com maior incidência. Na primeira postagem da série, falamos da ética e solidariedade que deve existir quando um confrade religioso falece, no entanto, é nesse momento que muitos falsos sacerdotes se aproveitam para "caçar a cabeça" de um Omo Òrìsà. Infelizmente, há "sacerdotes" que mesmo no velório, iniciam as investidas com os filhos de santo do falecido. Por vezes, com uma conversa aparentemente confortadora, mas que deixa aquela pessoa em dúvidas. Vejamos:

"olha, a sua Ìyálòrìsà faleceu, mas pode contar comigo, afinal será que a pessoa que assumir tem o conhecimento necessário?";

"meu filho, eu sei da sua dor, mas você precisa logo lavar a sua cabeça, esse é o meu cartão, não evite em me procurar";

"eu lamento a sua perda, fico mais triste ainda porque acho que sua casa não terá continuidade, mas a minha casa está de portas abertas para recebê-lo"...

Sábado, 30 Novembro 2013

Jamais Desdenhe de Um Presente, Como Obara Tornou-se Rico

Jamais Desdenhe de Um Presente, Como Obara Tornou-se Rico
Uma antiga história Nàgó, conta que havia quatro amigos que de nove e nove dias realizavam a consulta de Ifá para Olofin. Um desses amigos se chamava Obara. Sempre que eles realizam o jogo de Ifá, Olofin os presenteava de alguma forma. Certa vez, querendo agradecer todos os trabalhos realizados, Olofin bastante generoso, pegou quatro abóboras colocando uma grande riqueza dentro de cada uma. Em uma ele colocou dinheiro, em outras duas ele colocou contas muito raras e caras e em outra, roupas que somente os reis usam de valor inestimável. Após fazer isso, Olofin chamou Èsù, que de forma mágica, fechou as abóboras fazendo aparentar que as mesmas nunca haviam sido abertas. A intenção de Olofin, era presentear cada um dos amigos com uma abóbora, deixando-os ricos. Quando os amigos chegaram na casa do grande Olofin, eles realizaram o jogo de Ifá, como de costume. Ao final, Olofin entregou uma abóbora para cada um dos quatro amigos. No entanto, três deles desdenharam do presente, entregando todas para Obara, que não as recusou, juntando com a abóbora que ele mesmo havia recebido de Olofin. Ao chegar em sua casa, Obara entregou as abóboras para sua esposa, que disse: "Obara, eu não quero abóboras, o que vou fazer com abóboras?". Como estava com fome, Obara resolveu preparar o presente para que pudesse comer. Ao abrir a primeira, ele descobriu que dentro havia uma grande quantidade de dinheiro, espantado ele foi abrindo uma por uma e descobrindo a riqueza que havia nelas. Obara a partir de então tornou-se rico e poderoso. Quando as pessoas lhe perguntavam como ele havia ficado tão rico, ele respondia: "Com Abóboras". Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè

Domingo, 17 Novembro 2013

Ìyàmì

Ìyàmì
IYAMI Ìyàmì Hoje vamos falar um pouco sobre uma das mais importantes e perigosas Divindades do Candomblé, a grande mãe ancestral Ìyàmì. Essas grandes senhoras são, sem dúvidas, o maior símbolo do poder feminino da cultura yorùbá. Antes de tudo, é importante recordarmos que o culto às Mães Ancestrais, chegou ao Brasil, ainda à época da escravidão, sobretudo por meio de Maria Júlia Figueiredo, do Terr...eiro da Casa Branca do Engenho Velho, que possuía dois dos mais importantes títulos nas sociedades femininas yorùbá, o de Ìyálode (chefe entre as mulheres) e Erelu (supremo título feminino na sociedade Ogboni). É muito importante salientar o papel de Maria Júlia Figueiredo (Ìyá Omoniké), para a formação desse culto no Brasil, bem como os seus títulos honoríficos, trazidos da África, pois há quem erroneamente acredite que o conhecimento litúrgico acerca das Ìyàmì seja algo recente no Brasil. Fato é que nas mais antigas e tradicionais comunidades de Candomblé da Bahia, o culto à Ìyàmì sempre existiu, no entanto, o respeito que existe em relação a essa Divindade fez e faz com que o seu culto seja restrito e não participado à maioria. A evocação dessa importante Divindade em rituais como o Ipade, bem como, os assentos mais que centenários existentes nos tradicionais terreiros, corroboram a constatação desse culto ter sido introduzido no Brasil, juntamente com o surgimento do Candomblé na Bahia. Ìyàmì é tida como a perigosa feiticeira yorùbá, por isso recebe o nome de Ìyàmì Ajé (minha mãe a feiticeira). O medo e respeito acerca dessa divindade são tão significativos que, o seu principal nome (Osoronga), quase nunca é pronunciado nas Casas de Candomblé. Quando isso ocorre, a pessoa que está sentada se levanta, cruzando a barriga e nunca em sinal de respeito e reverência. O mesmo ocorre na cerimônia do Ipade, quando as filhas da comunidade cruzam a barriga e nunca, sempre que pronunciado o nome, por completo, da grande mãe ancestral. O primeiro nome Ìyàmì, que significa "Minha Mãe", antecede os diversos "apelidos" que são utilizados para mencionar a grande mãe ancestral, tais como o mencionado "Ìyàmì Osoronga" (que não deve ser pronunciado em momentos indevidos), "Ìyàmì Eleye", "Ìyàmì Ajé", "Ìyàmì Agba" dentre muitos nomes. O poder de Ìyàmì é intangível e desmedido, ela é sem dúvida alguma, uma das Divindades mais poderosas do Candomblé e, essa é uma das razões para que as pessoas tenham tanto receio e medo em relação a Ìyàmì. No Ipade, Ìyàmì é louvada por meio de cânticos específicos que enaltecem as suas características e por meio de oferendas que apaziguam a sua cólera, fazendo com que exista o equilíbrio necessário para a realização das festividades. Em momento algum podemos deixar de lado o perigo existente acerca de Ìyàmì, no entanto, não podemos igualmente deixar de recordar que Ìyàmì, é também, o próprio princípio genitor feminino, a representação máxima da ancestralidade feminina. Muitos dizem, de forma indevida, que Ìyàmì é uma divindade do mal. A verdade é que Ìyàmì jamais pode ser deixada de lado, isso sim desperta a sua cólera e seus aspectos mais perigosos. Ìyàmì é o maior símbolo da ancestralidade feminina e a maior representação feminina é o ventre, simbolizado na cultura yorùbá pela cabaça (igba) e pelo ovo (eyin adiye). Ìyàmì é a grande dona do ventre, razão pela qual, muitas mulheres com dificuldade de engravidar recorrem a ela, para conseguir realizar o sonho da maternidade. Ìyàmì tem grande poder sobre toda a parte genitora, uma das reverências que as mulheres realizam para Ìyàmì, é justamente tocar a árvore sagrada dessa Divindade com a barriga, em sinal de respeito e clamando por proteção e filhos. Os terreiros de Candomblé que colocam em suas portas ou assentos de Ìyámì, um pequeno alguidar com ovos e azeite de dendê, estão apaziguando a grande mãe e pedindo para que as intrigas, confusões e discórdias não adentrem ao terreiro. Como já mencionado, o ovo representa o ventre e, por consequência Ìyàmì, o azeite de dendê, diferente do que muitos acreditam, por sua vez, tem o poder de apaziguar, de trazer a calma (eró). Outro símbolo dessa poderosa Divindade é o pássaro, por isso, ela também é chamada de Ìyàmì Eleye (a mãe dona do pássaro, em especial, a coruja). Aqui em Salvador, é comum se ouvir das antigas egbon do Candomblé que, quando uma coruja (owiwi) canta, Ìyàmì está anunciando a sua chegada o que pode em muitos casos, ser um mau presságio. Quando isso acontece, elas imediatamente cruzam a barriga e nunca. Muitas histórias discorrem sobre a ligação das Ìyàmì com os pássaros, com as penas das aves (Mãe poderosamente emplumada). Em uma antiga foto constante no terreiro da casa branca, Ìyá Júlia (Ìyá Lode, Erelu) aparece com uma pena de um pássaro na cabeça, mostrando novamente a sua ligação com o culto dessa Divindade. Ainda hoje, é comum veremos antigas egbon do Candomblé, carregando entre os cabelos, uma pena de pássaro. Algumas historias de Ifá, ilustram que Ìyàmì tem o poder de se transformar em pássaro, empoleirando-se em algumas árvores como Iroko e Ajanrere. Esse, por sinal, é um dos motivos para que as pessoas não fiquem debaixo da copa de Iroko durante a noite, pois acreditamos que ela se esconde em seus grandes galhos. Muito embora, grande parte do culto de Ìyàmì é destinada às mulheres, existe a dança de Gèlèdè, realizada por homens. Nessas danças, os homens prestam homenagem à Ìyàmì, com máscaras que simbolizam a própria imagem da Grande Mãe Ancestral. A dança realizada por homens, mostra de forma contundente que a mulher tem o poder da vida, pois todos são gerados no ventre feminino, todos nasceram de uma mulher, sendo fundamentalmente importante se curvar ante à poderosa mãe. No Brasil, a dança de Gèlèdè não perdurou, talvez pelo fato da supremacia da mulher nos terreiros e, ainda talvez, pelo forte culto à Egúngún, os grandes ancestrais masculinos, que diferente do culto à ÌYámì, tem quase que sua totalidade de rituais, liderados por homens. Todas as mulheres e todas as Divindades femininas – principalmente Òsun, Oba, Yewa, Oya, Nana e Yemoja, possuem uma grande ligação com Ìyàmì. Cada uma dessas Divindades possui uma justificativa que ilustra sua ligação com Ìyàmì, mas o fato de todas serem mães e poderosas em suas sociedades, reflete de forma abrangente esses laços. No Asè Òsùmàrè, à época das festividades de Òsun, existe um ritual carregado de simbolismo, na qual as mulheres do Terreiro carregam as águas para a árvore consagrada à grande e poderosa mãe. As mulheres do Terreiro, principalmente as Agba, dançam e cantam em homenagem àquela que representa o maior poder da mulher na sociedade Nàgó. Nessa ocasião, a nossa Agba, Mãe Walquíria de Òsun, que possui no Terreiro de Òsùmàrè, o título de Ìyálode, carrega a máscara consagrada à Ìyàmì, evidenciando-nos de forma contumaz a manutenção desse importante culto no Brasil. Embora seja um ritual interno, realizado diante somente dos filhos da casa, é uma cerimônia muito importante para todos, pois revitaliza a importância da mulher e do poder feminino, remetendo-nos à mais pura essência da nossa cultura ancestral. É fundamental, ainda, pois apazigua os poderes dessas grandes mães, transformando sua energia num poderoso agente de proteção, seja para casa, seja para os filhos do egbe. Obviamente, esse culto é cercado de segredos que não podem ser revelados aos não iniciados e, em momento algum, podemos esquecer que estamos escrevendo num ambiente que é aberto a todos. No entanto, mesmo com o cuidado de não participar o Awo (mistério) desse culto, nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos ter contribuído para o esclarecimento sobre essa importante Divindade do Candomblé, Ìyàmì Agba. Terreiro de Òsùmàrè

Domingo, 17 Novembro 2013

O Culto aos Ancestrais e a Reencarnação no Candomblé

O Culto aos Ancestrais e a Reencarnação no Candomblé
Nós já falamos um pouco sobre o culto a Ìyàmì, a grande mãe ancestral, hoje por outro lado, vamos discorrer sobre o culto aos ancestrais (Egúngún), por sua vez liderado por homens. Na religião dos yorùbás, cremos que há vida após a morte e que os mortos podem retornar à terra através do Culto à Egúngún. De forma muito resumida, podemos afirmar que há o culto aos ancestrais "Lese Òrìsà" e o culto aos ancestrais "Lese Egúngún". O primeiro é realizado nos terreiros de Candomblé – no Ilé Ibó Aku (casa de adoração aos ancestrais), em que os Sacerdotes de Òrìsà cultuam os ancestrais do terreiro, sem que exista a manifestação física desse ancestre. Esses ancestrais chamados de Esá são louvados e evocados em rituais como o Ipade e em cerimônias dedicadas à ancestralidade da Casa de Candomblé. O segundo, por sua vez, ocorre nos chamados Terreiros de Egúngún, em que o Sacerdote do culto a Egúngún (Alapini, Alagbá e Ojé) cultuam além dos ancestrais daquele terreiro e da família, os ancestrais patronos de cidades inteiras, como ocorre, por exemplo, com Baba Ologbojo, patrono da cidade de Ogbojo na África, ainda hoje cultuado nos Terreiros de Egún da Ilha de Itaparica. Além disso, esses Sacerdotes, trazem à terra, esses Egúngún de forma física, ricamente vestidos com roupas coloridas. Um Itán de Ifá, narra que na cidade de Oyo (África), existia um fazendeiro chamado Alapini. Esse fazendeiro tinha três filhos (Ojewuni, Ojesami e Ojerinlo). Certo dia, Alapini fez uma viagem e recomendou aos filhos que não comessem um tipo especial de inhame, haja vista ele deixar as pessoas com uma sede desmedida. Os filhos ignoraram a advertência e comeram em excesso o aludido inhame. Como já anunciado pelo Alapini, eles tiverem uma sede imensurável e beberam água até a morte. Quando do seu retorno, o Alapini deparou-se com seus filhos mortos e resolveu procurar um Babalawo. Através do jogo de Ifá, o Babalawo disse que no décimo sétimo dia da morte de seus filhos, o Alapini deveria ir até um bosque que havia perto do rio e pegasse um galho de Àtòrì. Nesse bosque ele deveria bater no chão três vezes o Isan (o bastão feito da árvore Àtòrì) e pronunciar certas palavras mágicas e chamar pelos nomes dos filhos "wa de" (venha), na terceira vez os filhos retornariam à terra e assim aconteceu. Por isso, o sumo sacerdote do culto aos ancestrais é chamado de Alapini, pois o fazendeiro de nome análogo foi o primeiro homem a materializar um ancestral no aye. Diferente do culto a Ìyàmì, no qual, as mulheres são as grandes líderes, no culto à Egúngún, a liderança pertence aos homens. Há uma antiga história de Ifá, que nos explica a razão disso. À época dos Òrìsàs, os homens eram os líderes de tudo. As mulheres, no entanto, resolveram punir os homens, mas sem nenhum critério ou limite, abusando desta decisão, humilhando-os. Yansan era a líder dessas mulheres revolucionárias que se reuniam em uma floresta. Oya havia domado e treinado um macaco marrom chamado Ijimere, utilizando para isso, um isan (galho da árvore "Àtòrì". Oya vestia o macaco com uma roupa feita de várias tiras de pano coloridas, de modo que ninguém via o macaco sob os panos. Conforme Oya batia o isan no solo, o macaco pulava de uma árvore para outra, movimentando-se de forma alucinante, como fora treinado por Oya. Deste modo, durante à noite, quando os homens por lá passavam, as mulheres que estavam escondidas, faziam o macaco aparecer e eles fugiam totalmente apavorados, pois acreditavam estar vendo um Egúngún. Cansados de tanta humilhação, os homens foram consultar Ifá através de um babaláwo, a fim de descobrir a causa de tamanha injúria. Através do jogo de Ifá, a farsa das mulheres foi desvendada. Ifá recomendou aos homens, alguns sacrifícios, sendo Ògún, o encarregado de reverter o cenário imposto pelas mulheres. Quando Ògún chegou ao local das aparições, vestiu-se com vários panos coloridos, ficando totalmente encoberto, escondendo-se atrás de uma árvore. Quando as mulheres chegaram, ele apareceu subitamente, correndo, berrando e brandindo sua espada pelos ares, todas as mulheres fugiram assustadas, inclusive Oya. A partir desse dia, os homens dominaram as mulheres e as expulsaram para sempre do culto aos ancestrais. No entanto, Oya Igbale, continua sendo a Divindade que os Egúngún respeitam. Muitos desacreditam da manifestação dos ancestrais e isso aconteceu até mesmo com os Òrìsàs. Outra história de Ifá, narra que após o Alapini ter evocado presencialmente os seus filhos já falecidos, Sàngó mandou lhe chamar, pois não acreditava que os mortos podiam voltar do além. Como Sàngó era o grande Rei de Oyo, o Alapini foi prontamente ao palácio, quando chegou lá, Sàngó disse que iria prender Alapini, pois ele dizia que tinha o poder de trazer os mortos do além e isso era uma grande mentira e que se ele realmente conseguia fazer isso, que fizesse diante dos olhos de Sàngó. Alapini respondeu que não poderia evocar os ancestrais diante de Sàngó, mas que sim era possível trazer os mortos do além. Sàngó então mandou que construíssem um quarto dentro do palácio e vistoriou toda a edificação, garantindo que não havia ninguém dentro dela. Sàngó pediu para que o Alapini entrasse no quarto e que se ele tinha realmente esse poder, ele evocasse os ancestrais lá dentro, pois Sàngó tinha certeza que não havia mais ninguém lá. Alapini pediu algumas coisas, como panos, espelhos e um Isan (a grande vara de atori). Sàngó pessoalmente entregou tudo ao Alapini, certificando-se que não havia truques. Feito isso, Sàngó trancou a porta e ordenou que Alapini evocasse os ancestrais. Pouco tempo depois, uma voz rouca começou a sair do quarto. Sàngó irritado, disse que se aquilo fosse um truque, o Alapini seria morto. Passado mais um tempo, o Alapini pediu que abrissem a porta, quando Sàngó abriu, saíram de lá o Alapini e Egúngún, vestido com os panos e espelhos preparados pelo Alapini. Diante disso e impressionado, Sàngó instituiu o culto aos ancestrais em Oyo (seu reinado) e, a partir desse dia, todos os Alaafin (rei de oyo), são empossados pelo Alapini, pois é ele que conhece a ancestralidade de Sàngó. No Candomblé, o culto aos antepassados é tão importante que, mesmo antes de louvarmos os Òrìsàs, devemos render homenagens aos ancestrais, isso é ainda mais saliente nas casas antigas, em que já houve mais de um Sacerdote, sendo que o líder atual, sempre reverenciará aqueles que o antecederam. Nesse sentido, acreditamos que, quando uma Ìyálòrìsà ou Babalòrìsà falece, ele também servirá como conselheiro para os que o sucederão, no entanto, como ancestral, sendo muitas vezes consultado por meio do oráculo. Há um antigo provérbio yorùbá que diz: "Você só completará a sua missão, se cumprir a missão dos seus antepassados". Como exposto acima, no Candomblé nós acreditamos na vida além da morte, em verdade, cremos que a morte é o renascimento para todos. Nós cremos que, quando uma pessoa morre, ela parte para um dos espaços Orùn, a depender da sua conduta no Ayè (que também é considerado um dos Orùn, para os yorùbá). Acreditamos na existência do Orun Rere (reservado para as pessoas que tiveram uma conduta exemplar no Aye), o Orun Alafia (local de grande paz e harmonia), o Orun Funfun (local da pureza), o Orun Baba Eni (local no qual cremos que residem os Sacerdotes), Orun Isalu (local onde as pessoas serão julgadas), Orun Apadi (local ruim, das coisas que não serão reparadas e que não serão restituídas à vida através da reencarnação), o Orun Buruku (o pior espaço, para onde vão as pessoas más) e o Orun Afefe (onde os espíritos permanecem e tudo é corrigido, e lá ficarão até serem reencarnados). Desse modo, nós também acreditamos na reencarnação (Atunwa), mas como vimos, nem todos serão reencarnados. A viagem da vida (Ajolaiye) em sua amplitude, não é concedida a todos, mas quando isso ocorre, cremos que seja na mesma família. No Candomblé, quando existe a reencarnação, essa ocorre invariavelmente no mesmo seio familiar daquele que faleceu. Nesse sentido, essa "sentença" de nascer na mesma família, serve como "premio" ou "punição". Quando uma pessoa atingiu seu papel no aye, de forma benéfica, ele certamente contribuiu para a edificação de sua família, assim sendo, quando ele retornar para essa família, ele estará retornando para um ambiente que ele mesmo contribuiu para que fosse bom e isso será considerado um prêmio ancestral. No entanto, se ao invés disso, ele tenha causado problemas à sua família, ele retornará para um ambiente que ele contribui para que não fosse bom, sendo assim uma punição, no entanto, com uma oportunidade de virar o jogo. Na África, essas crianças reencarnadas são descobertas pelo oráculo logo quando do seu nascimento, recebendo nomes que evidenciam isso, como por exemplo, "Babatunde" (o pai retornou). Há um itan de Ifá, que discorre que uma pessoa só descansará eternamente no Orun, caso ela já tenha conseguido realizar todas as coisas boas que ela tinha que realizar no Ayé. Somente após isso ele poderá descansar, caso contrário, ela retornará ao Aye (Atunwa), para cumprir a sua missão. Isso tem como objetivo, atingir o equilíbrio máximo entre os Orun e Aye. Nós da Casa de Òsùmàrè, esperamos ter novamente contribuído para o esclarecimento da nossa cultura. Que Òsùmàrè Aràká, o grande patrono da nossa família, continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Sexta, 23 Agosto 2013

Babá Pecê agradece

Babá Pecê agradece
Eu Babá Pecê, agradeço todos os filhos, netos, familiares e amigos, pela presença e colaboração para a realização de mais uma cerimônia religiosa em louvor e regozijo ao patrono do nosso Asè, nosso Pai Òsùmàrè. Quero registrar que a presença de cada um de vocês, foi de importância fundamental para a realização dessa festividade. Agradeço todos, desde os mais velhos aos mais novos, que se locomoveram para o alto da colina, em uma demonstração de fé e amor, para juntamente conosco, uma vez mais louvar os Òrìsàs. Peço ao nosso Pai Òsùmàrè, à nossa Mãe Yewa, que retribuam o carinho de todos com vida longa com saúde! Que os Òrìsàs cuidem dos lares, da saúde e da família de cada um de vocês. Agradeço de coração, as contribuições financeiras, bem como, o tempo e esforços empregados por muitos para que pudéssemos realizar essa importante cerimônia, lembrando que, para os nossos Deuses, ambos possuem o mesmo valor. Ao longo da semana, observei com muita satisfação o trabalho da nossa comunidade para que tudo acontecesse da forma como ocorreu, os mais novos e os mais antigos, cada qual com sua disponibilidade física buscando fazer algo para a renovação da força que nos move- o Asè. Para mim, tudo isso tem um nome, tem uma explicação - a Fé! Como líder religioso dessa importante comunidade, trabalharei para melhoramos sempre. Brevemente me reunirei como Conselho Religioso do Terreiro de Òsùmàrè, para distribuirmos as responsabilidades com os mais antigos, valorando a sua importante presença dentro do Asè. Delegaremos equipes para auxiliar os filhos e familiares que percorrem grandes distâncias para professar a sua fé aqui em nossa Casa. Enfim,não medirei esforços para melhorar a cada dia, e acolher os filhos e filhas dos Orisas com o amor que merecem. Que nosso Pai Òsùmàrè cubra todos de bênçãos e realizações. Que a mesa de cada um seja sempre farta, que todos tenham saúde,prosperidade e felicidades. Que a paz predomine na casa e vida de cada um e que, sobretudo, todos continuem professando essa linda religião que é o Candomblé! Ahoboboy! Baba Pecê Babalòrìsà do Terreiro de Òsùmàrè

Segunda, 28 Janeiro 2013

Nàná Não Aceita Render Homenagens a Ògún

Nàná Não Aceita Render Homenagens a Ògún
Hoje vamos discorrer uma antiga história do Candomblé, muito versada nos tradicionais Terreiros de Salvador, a qual aborda dois dos mais venerados Òrìsàs do panteão Nàgó; Nàná a antiga Deusa dos pântanos e Ògún, o Deus do ferro. Nàná e Ògún foram participar de um clero no qual estariam as demais Divindades do Candomblé. O objetivo dessa reunião era discutir os poderes de cada Òrìsà, bem como a importância desses poderes entre eles. Logo no início, eles destacaram a importância de Òsàlá, a Divindade que criou os seres, que por meio do sopro divinizado dá vida à humanidade. Salientaram os poderes divinatórios de Orunmilá, o testemunha do destino das pessoas, aquele que se senta ao lado de Deus. Lembraram-se sobre o papel singular de Èsù para a vida não somente dos humanos, mas também para os demais Deuses. Recordaram da importância de Ori, a Divindade que cuida da cabeça das pessoas. Dado momento da reunião, todos começaram a ressaltar a importância de Ògún. Os Òrìsàs teciam elogios ao Deus do ferro, mencionando que é por meio dos instrumentos construídos por Ògún que eles podem viver. Um disse que é por meio da enxada que Ògún fabricou que é possível tirar o alimento da terra. Outra Divindade mencionou que eles comem por meio do facão de Ògún. Eles exclamavam: "Nós precisamos muito de Ògún, todos devemos prestar homenagens a Ògún". Nesse momento, no entanto, Nàná mostrou seu descontentamento: "Como assim, o trabalho de Ògún não é tão importante com vocês estão falando". Nàná disse ainda, que não dependia de Ògún para nada e que jamais iria lhe render homenagens. Ògún, por sua vez afirmou: "Nàná, se todas as outras Divindades concordam em me prestar homenagens, você também deve fazer". Desse modo, Nàná e Ògún ficaram um longo tempo discutindo, cada um defendendo os seus argumentos. Nàná finalizou dizendo que ela não prestaria homenagem sequer a Ògún, que a interpelou dizendo: "Já que é assim, você Nàná não poderá usar nada que é meu por origem. Você não poderá usar a faca, ou nada que seja de metal em seu culto". Todos acharam justo e, a partir desse dia, no culto de Nàná não utilizamos as ferramentas confeccionadas por Ògún, o Deus do ferro. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè

Domingo, 27 Janeiro 2013

Muito Cuidado Com o Que você Promete à Òsun, a Deusa das Águas!!!

Muito Cuidado Com o Que você Promete à Òsun, a Deusa das Águas!!!
Uma antiga história Nàgó, conta que o grande rei Oluwu, estava seguindo para uma batalha muito difícil, entretanto, ele tinha que atravessar o rio em um dia que o mesmo estava demasiadamente agitado. Como a batalha era muito importante e Olowu não podia perder nenhum dos seus soldados, ele fez uma promessa a Osun, a Deusa desse rio, de modo que ele e o seu exército tivesse sucesso na travessia. Oluwo ajoelhou-se diante do rio e proferiu: "Minha Mãe Osun, se a senhora permitir atravessar o seu rio juntamente com o meu exército e me favorecer na grande batalha, eu lhe darei coisas boas". Olowu, no entanto, não se atentou que sua esposa tinha por nome "Coisas Boas" (Nkan Rere). Logo após a súplica de Olowu, as águas do rio começaram a baixar, mas Osun havia entendido que Olowu iria lhe presentear com sua mulher "Nkan Rere". Olowu e seu exército conseguiram atravessar o rio e venceram a grande batalha. No caminho de volta, Olowu novamente se deparou com o rio, que uma vez mais estava com suas águas bastante agitadas. Diante do rio de Osun, Olowu mandou que todos jogassem às águas muitas coisas boas. Assim, Olowu e se exército começou a depositar no rio muitos búzios, muitos ovos, pulseiras e correntes de bronze. No entanto, tudo que eles jogavam ao rio, voltava, ou seja, Osun não aceitou nenhuma das oferendas e suas águas ficavam cada vez mais agitadas. Preocupado com aquela situação, Olowu consultou Ifá que lhe disse que Osun estava irritada, pois Olowu havia prometido a própria mulher ao rio. Somente nessa hora Olowu percebeu "Coisas Boas" também era o nome de sua esposa. Olowu então levou a própria esposa ao rio, de modo que Osun voltasse a ficar calma. A esposa de Olowu estava grávida e essa criança nasceu dentro do rio, com a proteção de Osun. Assim que a criança nasceu, Osun a devolveu, dizendo que Olowu só havia prometido "Nkan Rere" e não a criança. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè.

Quarta, 23 Janeiro 2013

O Preconceito Ainda Existe, Não Podemos Fechar os Olhos

O Preconceito Ainda Existe, Não Podemos Fechar os Olhos
O Preconceito Ainda Existe, Não Podemos Fechar os Olhos. No Capítulo de hoje da novela Lado a Lado da Rede Globo, a personagem Jurema, interpretada pela atriz Zezeh Barbosa, foi presa por praticar a sua fé, o Candomblé. As palavras do delegado Praxedes, personagem vivido por Guilherme Pive, transparecem de forma clara o preconceito existente à época: "Praticar jogos de adivinhação e magia é contra a lei. E não adianta pedir clemência, a denúncia veio de um padre muito respeitado!". Com efeito, cremos que a novela trabalhará a questão do preconceito religioso de forma coerente, séria e verdadeira, entretanto, ainda é incipiente julgarmos uma opinião formada concernente ao modo como o mesmo será abordado na trama. Em resposta, a personagem indignada, profere com sabedoria: "Eu não preciso da clemência de ninguém, não fiz nada de errado! O meu único sentimento agora é de tristeza, de ver tanta intolerância!". Fato é que, mesmo passados tantos anos do tempo que ocorre a trama, a questão não poderia ser mais atual. A cada dia, nós Candomblecistas, somos cerceados no que tange a nossa liberdade de culto, infelizmente a intolerância religiosa ainda impera na sociedade. Sobre isso, é importante refletirmos, à exemplo do ora dito pela personagem, Nós Não Estamos Fazendo Nada de Errado! Nós devemos ser respeitados pelo povo, pelos demais credos e, sobretudo, pela sociedade. Esperamos ver na novela, um desfecho diferente daqueles que ocorreram com tantos dos nossos antepassados, ou seja, um desfecho com Justiça! Terreiro de Òsùmàrè

Terça, 22 Janeiro 2013

Mulheres de Axé, o Matriarcado nas Comunidades Nàgó da Bahia

Mulheres de Axé, o Matriarcado nas Comunidades Nàgó da Bahia
O advento do documentário "Mulheres de Axé", impeliu-nos, filhos da Casa de Òsùmàrè, a redigir ainda que de forma lacônica, algumas linhas que busquem ilustrar o papel histórico, cultural e religioso das mulheres dentro das chamadas Comunidades do Candomblé. Em verdade, desde a fundação dos primeiros Terreiros da Bahia, a figura das mulheres – Mães de Santo permeia o imaginário não somente dos baianos, mas também de todos àqueles que presenciaram a notoriedade, prestígio e certa supremacia religiosa dessas senhoras que não limitaram suas influências aos Terreiros, fazendo por vezes, ecoar a sua voz em lugares pouco prováveis, como veremos a diante. Com efeito, podemos afirmar que essas Mulheres de Axé, conseguiram constituir no Brasil, sobretudo na Bahia (Salvador e Recôncavo), uma espécie de "Feminismo Nàgó", que a priori não existia na África, ao menos com a intensidade e importância com a qual foi edificada por aqui, obviamente excetuando as sociedades femininas, como a das Ìyàmì. Esse movimento surgiu no período pré-abolição, em que as mulheres por meio de trabalhos culinários (venda de quitutes, acarajés, abarás, doces, etc...), conseguiam guardar dinheiro para a compra da sua alforria, bem como, a compra da alforria de outros escravos, que posteriormente se agrupavam para a formação dos Terreiros de Candomblé. Em contrapartida, os homens ganhavam menos com os serviços braçais e possuíam dificuldade em juntar dinheiro, corroborado pelo fato de que, não obstante a renda feminina fosse maior, o homem não abria mão do sustento básico da família, numa busca pela manutenção da sua honra. Não podemos olvidar ainda que, quando os negros foram escravizados, famílias inteiras foram separadas de forma proposital, de modo que, quando essas mulheres conseguiram suas alforrias e, posteriormente, ganhos financeiros por meio da venda de comidas, tecidos e joias, elas buscavam restituir em solo brasileiro, a sua estrutura familiar ora existente na África, entretanto, fazendo valer a sua supremacia. Essas mulheres à vanguarda de seu tempo eram conhecidas e reconhecidas como as Mulheres do Partido Alto, que gozavam de prestígio em decorrência da sua condição econômica. Nesse cenário destoante do ethos das comunidades africanas, as mulheres erigiam não somente templos religiosos, mas também um status que lhes conferiam hegemonia e poder. Nascia o matriarcado do Candomblé. Entretanto, a Religião dos Africanos não se enquadrava para os padrões preconceituosos e cerceadores dos brancos daquela Bahia. Assim, essas Mulheres de Axé, ditas do Partido Alto penetraram no mundo do branco, por meio das confrarias religiosas como a Irmandade da Boa Morte e da Nossa Senhora da Barroquinha, aliando o status social ao já adquirido status financeiro e, fazendo valer o poder feminino no masculino clero católico. Porém, a sagacidade das Mulheres de Axé, as direcionava a seguir aquilo que mais lhe convinha, mesmo que não fosse totalmente aprovado pelos padrões existentes, razão pela qual as mesmas preferirem não se casarem à luz da lei, mesmo tendo sido elas, muitas vezes as responsáveis pela alforria do companheiro. Não havia desse modo, o motivo em ser subserviente aos seus companheiros, conforme apregoava o regimento cultural da época. Decisão essa que, uma vez mais, contribuía para a preeminência feminina. Visionárias, essas mulheres quando sacerdotisas restringiram a iniciação de homens em seus terreiros à figura do Ògán, salvaguardando-se dessa forma, de uma possível emersão masculina à busca do poder, quer seja social, quer seja religioso. Desse modo, as Mulheres de Axé, além de manter sua liderança espiritual intacta, impulsionava sua voz às comunidades externas por meio desses homens, que possuíam funções limitadas nos terreiros, mas que muitas vezes, tinham grande prestígio no âmbito social. A Ìyálòrìsà Aninha, fundadora do Opo Afonjá foi uma dessas sacerdotisas, que reuniu em seu Terreiro inúmeros homens da chamada sociedade baiana, conferindo títulos honoríficos para artistas e intelectuais. Essa "abertura" pouco profunda religiosamente propiciava ao Candomblé (nesse caso Mãe Aninha) a abertura de portas, como por exemplo, para a articulação junto a Getúlio Vargas, então Presidente da República, para a promulgação do Decreto-Lei 1.202, que findava o embargo sobre o exercício do Candomblé no Brasil. A probidade dessas mulheres, contribuiam para o valor de sua fala. Mãe Simplícia de Ògún, Ìyálòrìsà da Casa de Òsùmàrè, também fez ecoar sua voz junto ao Presidente Getúlio, vez que na prática, o decreto-lei 1.202, não era exercido. Mãe Simplícia, com a sapiência singular de uma sacerdotisa, intercedeu pela segurança dos Terreiros ao então Presidente, havendo inclusive registro fotográfico desse encontro. Todas as grandes Mulheres de Axé, de algum modo, utilizaram suas influencias, para algum tipo de benefício ao Candomblé. A célebre Mãe Menininha do Gantois, por exemplo, empregava esforços para o fim da necessidade de autorização para a realização de festas, emitida pela Delegacia de Jogos e Costumes. Mãe Cotinha de Yewa, que foi a primeira mulher a ascender ao trono da Casa de Òsùmàrè, também exerceu um papel fundamental para a defesa da liberdade de culto. Luta essa, também mantida por Mãe Nilzete de Yemoja, que com perseverança defendeu as terras do Terreiro de Òsùmàrè, ameaçadas na década de 80, em decorrência da construção de uma passarela na Av. Vasco da Gama. Na ocasião, Mãe Nilzete utilizou suas influências para conseguir o apoio à sua causa, de pessoas como Gilberto Gil, Ordep Serra, Capinan, dentre outros. É salutar destacar e isso é comprovado de forma factual, que a importância dessas Mulheres de Axé, deu-se pelo intrínseco conhecimento religioso de cada uma, mas igualmente, pela acuidade social e política que lhes permitiu transitar em todos os níveis, com equidade e, em muitas ocasiões, em patamar mais elevado. Exemplificamos com um exemplo atual, a Ìyálòrìsà do Asè Opo Afonjá, Mãe Stella, admirada e reconhecida, sendo inclusive consagrada com o título de Doutor Honoris Causa. Nos dias atuais, além das Ìyálòrìsàs, os Terreiros de Candomblé mais tradicionais da Bahia, outorgaram às suas filhas esse papel social e político que outrora era enveredado somente pela sacerdotisa. Assim, essas grandes representantes femininas das Comunidades Nàgó – As Mulheres de Axé, não são mais única e exclusivamente as Mães de Santo, sendo identificadas nas Egbon e Ekeji. Prova contundente disso, são nomes como a saudosa Mãe Rosinha de Sàngó, Egbon Cidália de Iroko, Egbon Nice e Ekeji Sinha da Casa Branca, Makota Valdina. Ekeji Angelina, Egbon Tomázia e Egbon Sandra de Yemoja, da Casa de Òsùmàrè e, tantas outras que seguem o exemplo daquelas pioneiras e sábias Mulheres de Axé que, edificaram casas e enraizaram uma nova cultura no Brasil. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Ewó – Os Interditos na Religião dos Òrìsàs

Ewó – Os Interditos na Religião dos Òrìsàs
Ewó – Os Interditos na Religião dos Òrìsàs – Escute as Recomendações do seu Sacerdote! "Minha Ìyálòrìsà me disse que eu não podia comer Cajá, eu comi e não me fez mal algum, esse negócio de Ewó é conversa fiada"! Talvez pela falta de informação ou conhecimento acerca da cultura dos Òrìsàs, muitas pessoas pensam dessa forma, ou seja, se comeu e não sentiu nada, não tem problema nenhum, pois não é... Ewó, será que é isso mesmo? Antes de tudo é preciso entender o que são os Ewó. Na religião dos Òrìsàs, acreditamos que ao longo da vida, todos os seres e Divindades passaram por momentos de alegria, felicidades, dificuldades, decepções, etc. Nessa ótica, aquilo que motivou ou desencadeou, por exemplo, um processo de decepção, tornou-se um interdito para aquele ser/Divindade. Há alguns meses, publicamos a razão de Ògún usar màrìwò. À época, esclarecemos que quando ele entrou mata adentro, envergonhado por ter matado o cachorro guardião do mercado da riqueza, suas roupas foram completamente rasgadas pela ação de uma determinada planta espinhosa, fazendo com que ele, envergonhado por estar nu, se vestisse completamente com màrìwò (Ogun Kolaso, Mariwo Aso Ogun-o Mariwo). A partir desse dia, o màrìwò tornou-se sagrado para Ògún, no entanto, a planta que rasgou suas roupas, passou a ser o seu Ewó. Caso um filho de Ògún venha a usar essa planta (por exemplo, um banho), provavelmente naquele momento ele não sentirá nada, mas ele despertará em Ògún, a lembrança daquele momento de vergonha, o que lhe pode ser prejudicial futuramente. Esse é somente um exemplo, para ilustrar, mas existem centenas de histórias que justificam todos os Ewós do Candomblé. Talvez a mais conhecida, seja a de Òsàlá, que deixou de criar o mundo, pois bebeu o Emú (vinho de palma), tornando essa bebida um terrível Ewó desse grande Òrìsà. Há, também, a história que justifica o Ewó do mesmo Òsàlá com o Epó Pupá, quando Èsù de forma maliciosa sujou sua impecável roupa branca com o dendê (Epo Made So Alá). Interessante observar que, muito embora o Epó Pupá e o Emú sejam Ewó de Òsàlá, ambos são apreciados por Ògún, o que nos mostra que, nem sempre o interdito para uma pessoa, será para outra. Muito embora, existam casos em que o Ewó é comum para todas as pessoas do Candomblé, como o caso da "Aranhola", conforme já mencionado em postagens antecedentes. Muitas pessoas comentam sobre os interditos alimentares, no entanto, existem muitas proibições que variam desde não poder usar roupas remendadas até não poder tomar banho de uma determinada folha ou conjunto de folhas. Esses Ewós são determinados em razão do Òrìsà da pessoa, bem como, o seu destino (Odù), identificado por meio de consulta ao oráculo. Conforme início do texto, muitas pessoas acreditam que "se comeu e não sentiu nada, não é Ewó". Mas, em verdade, as proibições não estão somente relacionadas a uma indisposição alimentar. A quebra do Ewó, invariavelmente implicará em prejuízos futuros, como uma possível cólera do Deus, em razão do não cumprimento do interdito. Quando um Sacerdote diz ao filho: "Meu filho, não coma abóbora". Ele não está querendo lhe privar de algo que até você ser iniciado sempre lhe fez bem. Ele somente está lhe dando informações preciosas que contribuirá no futuro, para a sua edificação espiritual. O mesmo ocorre quando a Ìyálòrìsà diz: "meu filho, não coma Cajá e não use roupa vermelha". Ela não quer lhe privar de um refresco saboroso ou da cor da moda. Ela somente quer o seu bem! Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!! Ilé Òsùmàrè Arákà Asè Ògòdó

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Culto aos Ancestrais e a Reencarnação no Candomblé

O Culto aos Ancestrais e a Reencarnação no Candomblé
Nós já falamos um pouco sobre o culto a Ìyàmì, a grande mãe ancestral, hoje por outro lado, vamos discorrer sobre o culto aos ancestrais (Egúngún), por sua vez liderado por homens. Na religião dos yorùbás, cremos que há vida após a morte e que os mortos podem retornar à terra através do Culto à Egúngún. De forma muito resumida, podemos afirmar que há o culto aos ancestrais "Lese Òrìsà" e o culto aos ancestrais "Lese Egúngún". O primeiro é realizado nos terreiros de Candomblé – no Ilé Ibó Aku (casa de adoração aos ancestrais), em que os Sacerdotes de Òrìsà cultuam os ancestrais do terreiro, sem que exista a manifestação física desse ancestre. Esses ancestrais chamados de Esá são louvados e evocados em rituais como o Ipade e em cerimônias dedicadas à ancestralidade da Casa de Candomblé. O segundo, por sua vez, ocorre nos chamados Terreiros de Egúngún, em que o Sacerdote do culto a Egúngún (Alapini, Alagbá e Ojé) cultuam além dos ancestrais daquele terreiro e da família, os ancestrais patronos de cidades inteiras, como ocorre, por exemplo, com Baba Ologbojo, patrono da cidade de Ogbojo na África, ainda hoje cultuado nos Terreiros de Egún da Ilha de Itaparica. Além disso, esses Sacerdotes, trazem à terra, esses Egúngún de forma física, ricamente vestidos com roupas coloridas. Um Itán de Ifá, narra que na cidade de Oyo (África), existia um fazendeiro chamado Alapini. Esse fazendeiro tinha três filhos (Ojewuni, Ojesami e Ojerinlo). Certo dia, Alapini fez uma viagem e recomendou aos filhos que não comessem um tipo especial de inhame, haja vista ele deixar as pessoas com uma sede desmedida. Os filhos ignoraram a advertência e comeram em excesso o aludido inhame. Como já anunciado pelo Alapini, eles tiverem uma sede imensurável e beberam água até a morte. Quando do seu retorno, o Alapini deparou-se com seus filhos mortos e resolveu procurar um Babalawo. Através do jogo de Ifá, o Babalawo disse que no décimo sétimo dia da morte de seus filhos, o Alapini deveria ir até um bosque que havia perto do rio e pegasse um galho de Àtòrì. Nesse bosque ele deveria bater no chão três vezes o Isan (o bastão feito da árvore Àtòrì) e pronunciar certas palavras mágicas e chamar pelos nomes dos filhos "wa de" (venha), na terceira vez os filhos retornariam à terra e assim aconteceu. Por isso, o sumo sacerdote do culto aos ancestrais é chamado de Alapini, pois o fazendeiro de nome análogo foi o primeiro homem a materializar um ancestral no aye. Diferente do culto a Ìyàmì, no qual, as mulheres são as grandes líderes, no culto à Egúngún, a liderança pertence aos homens. Há uma antiga história de Ifá, que nos explica a razão disso. À época dos Òrìsàs, os homens eram os líderes de tudo. As mulheres, no entanto, resolveram punir os homens, mas sem nenhum critério ou limite, abusando desta decisão, humilhando-os. Yansan era a líder dessas mulheres revolucionárias que se reuniam em uma floresta. Oya havia domado e treinado um macaco marrom chamado Ijimere, utilizando para isso, um isan (galho da árvore "Àtòrì". Oya vestia o macaco com uma roupa feita de várias tiras de pano coloridas, de modo que ninguém via o macaco sob os panos. Conforme Oya batia o isan no solo, o macaco pulava de uma árvore para outra, movimentando-se de forma alucinante, como fora treinado por Oya. Deste modo, durante à noite, quando os homens por lá passavam, as mulheres que estavam escondidas, faziam o macaco aparecer e eles fugiam totalmente apavorados, pois acreditavam estar vendo um Egúngún. Cansados de tanta humilhação, os homens foram consultar Ifá através de um babaláwo, a fim de descobrir a causa de tamanha injúria. Através do jogo de Ifá, a farsa das mulheres foi desvendada. Ifá recomendou aos homens, alguns sacrifícios, sendo Ògún, o encarregado de reverter o cenário imposto pelas mulheres. Quando Ògún chegou ao local das aparições, vestiu-se com vários panos coloridos, ficando totalmente encoberto, escondendo-se atrás de uma árvore. Quando as mulheres chegaram, ele apareceu subitamente, correndo, berrando e brandindo sua espada pelos ares, todas as mulheres fugiram assustadas, inclusive Oya. A partir desse dia, os homens dominaram as mulheres e as expulsaram para sempre do culto aos ancestrais. No entanto, Oya Igbale, continua sendo a Divindade que os Egúngún respeitam. Muitos desacreditam da manifestação dos ancestrais e isso aconteceu até mesmo com os Òrìsàs. Outra história de Ifá, narra que após o Alapini ter evocado presencialmente os seus filhos já falecidos, Sàngó mandou lhe chamar, pois não acreditava que os mortos podiam voltar do além. Como Sàngó era o grande Rei de Oyo, o Alapini foi prontamente ao palácio, quando chegou lá, Sàngó disse que iria prender Alapini, pois ele dizia que tinha o poder de trazer os mortos do além e isso era uma grande mentira e que se ele realmente conseguia fazer isso, que fizesse diante dos olhos de Sàngó. Alapini respondeu que não poderia evocar os ancestrais diante de Sàngó, mas que sim era possível trazer os mortos do além. Sàngó então mandou que construíssem um quarto dentro do palácio e vistoriou toda a edificação, garantindo que não havia ninguém dentro dela. Sàngó pediu para que o Alapini entrasse no quarto e que se ele tinha realmente esse poder, ele evocasse os ancestrais lá dentro, pois Sàngó tinha certeza que não havia mais ninguém lá. Alapini pediu algumas coisas, como panos, espelhos e um Isan (a grande vara de atori). Sàngó pessoalmente entregou tudo ao Alapini, certificando-se que não havia truques. Feito isso, Sàngó trancou a porta e ordenou que Alapini evocasse os ancestrais. Pouco tempo depois, uma voz rouca começou a sair do quarto. Sàngó irritado, disse que se aquilo fosse um truque, o Alapini seria morto. Passado mais um tempo, o Alapini pediu que abrissem a porta, quando Sàngó abriu, saíram de lá o Alapini e Egúngún, vestido com os panos e espelhos preparados pelo Alapini. Diante disso e impressionado, Sàngó instituiu o culto aos ancestrais em Oyo (seu reinado) e, a partir desse dia, todos os Alaafin (rei de oyo), são empossados pelo Alapini, pois é ele que conhece a ancestralidade de Sàngó. No Candomblé, o culto aos antepassados é tão importante que, mesmo antes de louvarmos os Òrìsàs, devemos render homenagens aos ancestrais, isso é ainda mais saliente nas casas antigas, em que já houve mais de um Sacerdote, sendo que o líder atual, sempre reverenciará aqueles que o antecederam. Nesse sentido, acreditamos que, quando uma Ìyálòrìsà ou Babalòrìsà falece, ele também servirá como conselheiro para os que o sucederão, no entanto, como ancestral, sendo muitas vezes consultado por meio do oráculo. Há um antigo provérbio yorùbá que diz: "Você só completará a sua missão, se cumprir a missão dos seus antepassados". Como exposto acima, no Candomblé nós acreditamos na vida além da morte, em verdade, cremos que a morte é o renascimento para todos. Nós cremos que, quando uma pessoa morre, ela parte para um dos espaços Orùn, a depender da sua conduta no Ayè (que também é considerado um dos Orùn, para os yorùbá). Acreditamos na existência do Orun Rere (reservado para as pessoas que tiveram uma conduta exemplar no Aye), o Orun Alafia (local de grande paz e harmonia), o Orun Funfun (local da pureza), o Orun Baba Eni (local no qual cremos que residem os Sacerdotes), Orun Isalu (local onde as pessoas serão julgadas), Orun Apadi (local ruim, das coisas que não serão reparadas e que não serão restituídas à vida através da reencarnação), o Orun Buruku (o pior espaço, para onde vão as pessoas más) e o Orun Afefe (onde os espíritos permanecem e tudo é corrigido, e lá ficarão até serem reencarnados). Desse modo, nós também acreditamos na reencarnação (Atunwa), mas como vimos, nem todos serão reencarnados. A viagem da vida (Ajolaiye) em sua amplitude, não é concedida a todos, mas quando isso ocorre, cremos que seja na mesma família. No Candomblé, quando existe a reencarnação, essa ocorre invariavelmente no mesmo seio familiar daquele que faleceu. Nesse sentido, essa "sentença" de nascer na mesma família, serve como "premio" ou "punição". Quando uma pessoa atingiu seu papel no aye, de forma benéfica, ele certamente contribuiu para a edificação de sua família, assim sendo, quando ele retornar para essa família, ele estará retornando para um ambiente que ele mesmo contribuiu para que fosse bom e isso será considerado um prêmio ancestral. No entanto, se ao invés disso, ele tenha causado problemas à sua família, ele retornará para um ambiente que ele contribui para que não fosse bom, sendo assim uma punição, no entanto, com uma oportunidade de virar o jogo. Na África, essas crianças reencarnadas são descobertas pelo oráculo logo quando do seu nascimento, recebendo nomes que evidenciam isso, como por exemplo, "Babatunde" (o pai retornou). Há um itan de Ifá, que discorre que uma pessoa só descansará eternamente no Orun, caso ela já tenha conseguido realizar todas as coisas boas que ela tinha que realizar no Ayé. Somente após isso ele poderá descansar, caso contrário, ela retornará ao Aye (Atunwa), para cumprir a sua missão. Isso tem como objetivo, atingir o equilíbrio máximo entre os Orun e Aye. Nós da Casa de Òsùmàrè, esperamos ter novamente contribuído para o esclarecimento da nossa cultura. Que Òsùmàrè Aràká, o grande patrono da nossa família, continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Ajogun – Àqueles Que Lutam Contra A Humanidade

Ajogun – Àqueles Que Lutam Contra A Humanidade
Nas últimas postagens, abordamos duas Divindades de suma importância, que estreitam os laços existentes entre o Orùn e o Aye (Ìyàmì e Egúngún). Hoje vamos falar um pouco sobre os "Ajogun", que não são Òrìsàs (é importante que isso fique claro a todos), mas sim, espíritos malignos que tem como objetivo afetar a vida das pessoas no Aye. À primeira vi...sta, muitos se apavoram em saber da existência de espíritos malignos que podem nos prejudicar. É fato que eles atrapalham a vida das pessoas, mas na concepção Yorùbá, esses espíritos fazem com que exista o equilíbrio natural, a simetria entre mundos e poderes. Isso é evidenciado, por exemplo, no jogo do Obì, no qual existe uma caída que reflete a harmonia perfeita, na qual duas faces internas do Obì caem voltadas para baixo e duas para cima, sendo que os sexos dos gomos do Obì caem divididos para baixo e para cima harmoniosamente. Na cultura dos Òrìsàs essa caída representa a simetria perfeita, pois o negativo e positivo estão em consonância, bem como o feminino e masculino. Dessa forma, embora malignos e terríveis, a existência dos Ajogun motiva as energias positivas a circularem no mundo. Essas energias positivas são estimuladas por meio dos sacrifícios (Ebó) que são prescritos por Sacerdotes, que o revelam por meio do oráculo. Os Ajogun são forças muito negativas, que tem como objetivo causar doenças, acidentes, brigas, discórdias. Por isso, quando há sacrifícios, é comum cantarmos pedindo para que a água (elemento mais puro e benéfico que existe) cubra e mate as discórdias (bomi pa ejo), cubra e mate as doenças (bomi pa arun), cubra e mate as maldições (bomi pa epe), etc. Em verdade, estamos pedindo para que a água cubra e mate os poderes malignos do mundo, os Ajogun. Diferente das Divindades que moram nos espaços do Orùn, regressando ao aye por meio da manifestação, os Ajogun moram no Aye e não no orùn. Isso acontece, pois os Ajogun não conseguiram causar males no mundo dos Deuses. Ou seja, os Ajogun moram no aye, pois aqui, diferente do orùn, eles conseguem espalhar os males de forma indiscriminada. Os Ajogun estão sempre à espreita, esperando um momento adequado para atuar. Por isso, é muito importante que as pessoas sempre se cuidem, por meio de oferendas, banhos e o que mais for necessário, conforme prescrição do Sacerdote. Quando algo de ruim surge no mundo, por exemplo, uma nova doença, isso certamente foi motivado por Ajogun, entretanto, quando uma grande descoberta em benefício à sociedade surge, foi motivada pelas forças positivas que sempre prevaleceram, como os Òrìsàs. Por diversas vezes, já discorremos sobre a importância da realização dos sacríficios prescritos, sobre a importância de não quebrar tabus (Ewó), uma das razões para termos falado bastante sobre esses temas, foi justamente para se entender que essas ações atacam os poderes dos Ajogun. Quando, por exemplo, uma pessoa quebra um Ewó, ela está ajudando e dando forças ao Ajogun. O mesmo ocorre quando o sacerdote prescreve um sacrifício que é negligenciado, a pessoa está dando forças ao Ajogun. Nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos uma vez mais, ter contribuído para o esclarecimento dos temas relacionados a nossa crença. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

A Importância da Folha de Teteregun

A Importância da Folha de Teteregun
A Religião dos Òrìsàs é cheia de rituais e simbolismos. No entanto, a razão desses rituais nem sempre é de conhecimento da maioria dos adeptos. Um dos rituais mais recorrentes no Candomblé, refere-se a folha de Teteregun, a qual é utilizada para molhar a cabeça dos Omo Òrìsà (filhos dos Deuses) e, em diversas outras ocasiões, pedindo-se sempre coisas boas. ... Mas porque fazemos isso? Uma antiga história de Ifá, narra que, Teteregun não realizou uma oferenda prescrita por Olokun e, quem em razão disso, estava ficando completamente seca. Desse modo, Teteregun ficou desesperada e resolveu consultar o oráculo sagrado. Ifá, o Deus da Adivinhação, por meio do oráculo disse que Teteregun deveria realizar um sacrifício, sendo que esse sacrifício seria pegar água para Olokun, ao longo de alguns dias. Logo ao amanhecer, Teteregun foi ao rio, quando Teteregun retornou já era noite, ela pegou toda água que trouxe e derramou no mar para Olokun. Teteregun fez isso ao longo de alguns dias, sendo que no último dia, Olokun molhou o corpo de Teteregun, dizendo que ela seria a folha encarregada de molhar o seco, que ela seria a folha com o poder de refrescar o calor, que ela seria a folha capaz de apaziguar a cólera, da mesma forma, como ela conseguiu apaziguar Olokun. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos sempre Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Dia em Que Iroko Cresceu e Chegou Diante de Olofin, O Adahun, a Chamada dos Deuses!

O Dia em Que Iroko Cresceu e Chegou Diante de Olofin, O Adahun, a Chamada dos Deuses!
Uma antiga história Nàgó, conta que Iroko era uma Divindade muito perigosa, que lutou muito, que sofreu, que se apaixonou e que em um certo momento resolveu deixar tudo para trás e ficou isolado no âmago de uma floresta africana, longe de tudo e todos. Naquela época, existam dois amigos, mas que começaram a bri...gar e tornaram-se inimigos após terem comido o fruto da árvore da discórdia. Aquela briga, revoltou o grande Olofin, que resolveu mandar um grande temporal. Durante esse temporal ecoava um som, fazendo com que todas as Divindades fossem para o Orùn, esse era o som do Adahun. Todas as Divindades, à exceção de Iroko, que estava no âmago da floresta, foram para o Orùn e os demais habitantes, acabaram por morrer, por conta do dilúvio. Òrìsà Nlá, o Santo dos Altos, foi até Olofin, dizendo que Iroko ainda estava na terra, pois ficou isolado no âmago da floresta. Olofin, então, mandou que chamasse Iroko por meio do som do Adahun e que não parassem até que ele fosse até o Orùn. Após algum tempo, Iroko escutou o som e começou a crescer até chegar aos pés de Olofin. Nada no mundo, nunca havia crescido tanto ao ponto de chegar ao Orun. Embora o próprio Olofin tenha mandado chamar Iroko ao Orùn, ele não ficou contente em ter sua intimidade invadida por Iroko, sendo que ele cresceu tantos que ficou com sua copa nos pés de Olofin. Em razão disso, Olofin quebrou os galhos da copa de Iroko, o cobrindo com uma grande núvem, dizendo que Iroko não poderia crescer mais do que aquilo, não permitindo assim, que ele novamente invadisse a sua privacidade. Olofin entregou os galhos que quebrou à Òrìsà Nlá, juntamente com um pedaço de Alá branco (que representava a nuvem branca), dizendo que, a partir daquele momento esse Opá e o Alá, seriam as suas grandes representações. Olofin disse à Iroko que, ele poderia sempre crescer e crescer, mas nunca ao ponto de chegar ao Orùn e que, a partir desse dia, um Alá deveria sempre estar envolto ao seu tronco, para que ele recordasse que a nuvem de Olofin o cobriu. Olofin ordenou que Iroko voltasse à terra, mas para isso, fez as raízes de Iroko voltar do Orùn para o Aye, razão pela qual falamos que Iroko nasce do céu para terra. Até hoje, no Terreiro de Òsùmàrè, entoa-se uma antiga cantiga que narra essa história e, por isso que, quando toca-se o Adahun, os Òrìsàs se apresentam. Que Òsùmàrè Aràká, continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè.

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Filho de Osin, a Primeira Criança Surda e Muda

O Filho de Osin, a Primeira Criança Surda e Muda
Uma antiga história, conta que Ifá havia orientado um poderoso Rei para fazer um sacrifício. Ifá disse que ele deveria realizar uma oferenda, para que a sua mulher que estava grávida, não tivesse nenhum tipo de problema com a criança que estava por nascer. Esse Rei (Osin), muito poderoso, ignorou as recomendações de Ifá e nada fez. ... Passado algum tempo, a mulher de Osin, deu à luz, nascendo um menino. Esse menino foi chamado de "A Coroa Que Anda com Honra". Ao longo do tempo, o Rei observou que a criança não falava nada, quando cresceu um pouco, descobriram que além de não falar, o menino também não escutava, tratava-se da primeira criança surda e muda que se tem conhecimento. O Rei fez de um tudo, mas o menino não falava e nem escutava. O Rei levou a criança aos caçadores de búfalo. Quando lá chegou, os búfalos berraram diante do menino, mas ele não esboçava nenhum sinal. Eles, então, levaram a criança aos caçadores de elefante, mas nem assim o menino falava ou escutava. A tartaruga, então, disse que ele faria com que a criança falasse. O Rei prometeu que, se a tartaruga fizesse a criança falar, ele dividiria sua casa em duas e daria uma metade para ela. A tartaruga consultou Ifá, que lhe disse que ela deveria preparar dois feixes de Atori com alguns elementos que ele lhe daria. Ifá disse que, ele deveria pegar bastante mel e levar em um caminho onde o filho de Osin sempre passava, explicando tudo que a tartaruga tinha que fazer, com aqueles Atori preparados. No outro dia, a tartaruga preparou os feixes de Atori conforme recomendação de Ifá, colocou ainda, bastante mel no caminho onde ele sabia que o filho de Osin passava e se escondeu atrás de uma árvore. Todos que passavam naquele caminho provavam o mel até que, passou o menino mudo e surdo. Quando o menino viu o mel, ele começou a provar se lambuzando todo. Nesse momento, a tartaruga pegou os Atori que estavam preparados e começou a golpear o menino, dizendo que ele era um grande ladrão e que deveria se envergonhar, pois era filho de um rei muito rico. Após alguns golpes com os Atori preparados, o filho de Osin pela primeira vez em toda a sua vida, começou a chorar e depois disso, começou a falar. Tartaruga disse: "Você, filho de Osin, a partir de hoje pode falar e escutar e eu vou te levar para o seu pai". Quando chegou diante de Osin, a tartaruga falou: "Eis seu filho, poderoso Osin, falando e escutando". Quando o menino começou a falar, Osin começou a chorar e disse: "Conforme eu prometi, metade da minha casa é sua". A partir desse dia, o Rei Osin, começou a reverenciar a Tartaruga. Que Òsùmàrè Àràká continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Aroni, A Divindade que Mora no Âmago da Floresta

Aroni, A Divindade que Mora no Âmago da Floresta
Na magnífica Religião dos Òrìsàs, acreditamos que existe um conjunto de espíritos que moram no âmago da floresta. Esse conjunto de espíritos é chamado de Ajáà. Um desses espíritos e, talvez, um dos mais temidos é Aroni, que mora na parte mais escura da floresta, onde mesmo a luz do sol não consegue penetrar. Acreditamos que ele guarda seus poderes... em um pedaço de carvão vegetal, o qual ele usa para potencializar as propriedades mágicas das ervas. O conhecimento de Aroni acerca das propriedades mágicas e medicinais das folhas é gigantesco, prova disso, é que Aroni foi um dos mestres da botânica de Osanyin. Aroni é temido até mesmo pelos Òrìsàs, primeiro pelo seu elevado conhecimento sobre a magia das folhas e, segundo, pelo seu aspecto inumano. Acreditamos que Aroni seja um espírito com cabeça e cauda de cachorro. Cremos, ainda que, em razão de Aroni sempre estar agachado à busca das ervas mais preciosas ele acabou ficando corcunda. Existem histórias Nàgó que discorrem que quando alguém se atreve a entrar no âmago da floresta, sem oferecer as oferendas corretas e pronunciar os Ofós (palavras mágicas) corretamente, Aroni as toma para si. Nesse âmbito, Aroni pega essa pessoa que passa a morar com ele na parte mais escura da floresta e, com ele, aprende os segredos mais poderosos das folhas, sendo novamente devolvido para o convívio com a humanidade, somente após ter aprendido o uso e magias de todas as ervas. Aroni fuma constantemente um cachimbo feito com a casca do Igbin, o qual ele também usa para potencializar as propriedades das folhas e encantar as pessoas que se deparam com ele. Em verdade, a floresta é um lugar sagrado, mas muito perigoso e todo cuidado deve ser tomado ao adentrá-la, por isso, inúmeros preceitos são realizados para pode entrar na morada dessas Divindades. Esperamos uma vez mais, ter contribuído para o esclarecimento e disseminação da nossa rica e importante cultura. Que Òsùmàrè continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Cuide de seu Òrìsà, pois você estará cuidando de si próprio

Cuide de seu Òrìsà, pois você estará cuidando de si próprio
Na Religião dos Òrìsàs, há um enorme conjunto de objetos, assentamentos e templos que devem ser cuidados, de modo que contribuam para o processo de revitalização da força, o chamado Asè. Fato é que o trato e cuidado, por exemplo, com as roupas que serão utilizadas pelas pessoas nos rituais festivos, são de grande importância, no entant...o, perdem toda a valia, a partir do momento que o conjunto não recebe a mesma atenção dispensada que, por exemplo, as roupas. Nós do Candomblé, ao pensarmos nos Òrìsàs, suas roupas, objetos, comidas e templos, devemos pensar que eles são Deuses e devem ser tratados como tal. Não é raro depararmo-nos com casas, nas quais as pessoas estão ricamente vestidas, mas que há tempos não entram no quarto do Òrìsà para trocar a água da quartinha ou trocar o Ojá que cobre a Divindade. Nesse sentido, não podemos em hipótese alguma, esquecermos que o Candomblé é uma religião com o poder da invocação e da sacralização. Dessa forma, é necessário que os Deuses sejam evocados e sacralizados e, reforçando, tratados como Deuses. O trato com os assentamentos, como por exemplo, a reposição da água das quartinhas é algo muito importante. A água é um dos principais elementos que existe, muito provavelmente o principal. A água fertiliza, a água revitaliza, a água refresca e purifica. Mas quando um Omo Òrìsà vai ao quarto da Divindade para a reposição da água, além de cumprir esse importante ritual, ele em verdade, muito mais que ofertando, está recebendo. Nesse momento, no qual ele emprega um pouco do seu tempo para a troca de água das quartinhas, ele estará mais próximo do sacro, recebendo energias que são fundamentais para o processo de energização, não somente dele, mas de toda a comunidade. Mas, o simples ato de trocar a águas das quartinhas, permite algo mais. Nesse simples gesto, ele poderá perceber que um Ojá necessita ser trocado, ou ainda, que uma telha está desencaixada em razão da ação de algum galho de árvore, ou por conta da chuva. Isso fará com que outros membros da comunidade se mobilizem e, sejam igualmente energizados pelas forças das Divindades que os abençoaram, movimentando assim o Asè, imprescindível para nós. O mesmo cuidado deve existir com os Ojubó externos, que invariavelmente, sofrem com a ação do tempo, como a chuva e o vento. Obviamente que essas manifestações da natureza, são manifestações dos próprios Òrìsàs, apesar disso, o cuidado para que quartinhas estejam sempre bem cuidadas, mesmo quando expostas ao tempo, bem como, os Ojás que circundam as árvores é de responsabilidade de todos os membros do Egbe. Novamente, reforçamos que são objetos sagrados, de Deuses, que devem ser tratados de forma sagrada. O Terreiro de Candomblé é um espaço sagrado e tudo que nele está, deve ser tido também dessa forma, assim sendo, todos devem estar atentos para que os espaços, objetos, assentos, estejam íntegros, pois isso interfere na harmonia da comunidade. Imagine se você chega em casa e descobre que aquela caneca que você cuida há mais de 20 anos, que seu filho lhe presenteou, quebrou por descuido. Isso lhe causaria um sentimento de perda sentimental, correto. O mesmo ocorre com os objetos dos Deuses, muitas vezes, são objetos que existem a décadas, séculos, que devem ser tratados com amor e carinho, para não causar essa perda aos Deuses e para a comunidade. Esse carinho que deve ser dispensado com os objetos e templos dos Òrìsàs, deve existir igualmente com a preparação das comidas dos Òrìsàs. Muitas pessoas afirmam que as comidas dos Òrìsàs devem ser preparadas da mesma forma como preparamos a comida para o nosso próprio consumo. Em verdade, o cuidado deve ser ainda maior, pois nós somos humanos e os Òrìsàs são Deuses. Por isso, além do corpo e coração purificados, quando da preparação das comidas, é essencial que exista o carinho, o asseio e a escolha dos ingredientes salubres. Tudo isso contribui para a fortificação e revitalização do Asè da pessoa e da comunidade. É muito bonito nos depararmos com pessoas bem arrumadas (em conformidade a tradição), com boa educação, mas, sobretudo, é importante e empolgante observamos que as pessoas tratam os Òrìsàs como Deuses que são. Cuide de seu Òrìsà, pois você estará cuidando de si próprio. Que Òsùmàrè Aràká continue sempre olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Respeito ao Òrìsà

O Respeito ao Òrìsà
Na postagem anterior, discorremos sobre a importância em se cuidar bem dos objetos, templos, comidas dos Deuses, etc. Em continuidade, vamos hoje abordar, algo ainda mais importante, que é cuidar e zelar pelo próprio Òrìsà quando manifestado em algum Omo Òrìsà. Antes de tudo, devemos todos os dias agradecer por sermos abençoados por uma Religião, que permite presenciar fisica...mente os Deuses nos quais acreditamos, os Deuses que tanto amamos. Apesar dessa "proximidade", não podemos jamais nos esquecer de que eles, os Òrìsàs, eles são Deuses. A presença física do Òrìsà, por meio da incorporação, é algo muito importante e sagrado. É fundamental que não nos esqueçamos de que, aquela Divindade que está presente em um Terreiro, dançando e abraçando as pessoas, é a mesma Divindade para a qual realizamos sacrifícios, oferendas e, que muitas vezes, pedimos ajuda para que tenhamos sucesso, paz, harmonia e tranquilidade. É a mesma Divindade para a qual fomos iniciados, a mesma Divindade que nos encantamos ao conhecermos suas histórias e características. Assim sendo, é fundamental tratarmos esses Òrìsàs como Deuses que são. Gestos simples, como prosternar-se ou abaixar-se diante do Òrìsà que irá lhe abraçar, não demonstra educação de Asè, demonstra sim, respeito por aqueles que verdadeiramente movem a nossa religião. As Ekeji possuem um papel de fundamental importância quando o Òrìsà está presente fisicamente. As Ekeji cuidam e zelam pelos Deuses, enxugam, arrumam os adereços de suas vestes, etc. Mas esse carinho e atenção, todos devem ter. Pois os Òrìsàs são os grandes chefes do Candomblé. Mas o respeito é algo que deve existir mesmo quando não demonstrado. Algumas pessoas, desprovidas de fé, possuem o costume de dizer (ou imaginar) que uma determinada pessoa está de "Eke", ou seja, fingindo a possessão. Isso é algo lamentável e deve ser reprimido. Devemos respeitar todas as Divindades que estão presentes e, jamais, desconfiar. Há também, pessoas que só acreditam nos Òrìsàs de "pé lavados", ou seja, aqueles que dançam de forma mais harmoniosa. Sobre esses aspecto, todos nós devemos sempre nos lembrar que são Deuses e, Deuses não são julgados, mas sim julgam. Quando for a um Terreiro de Candomblé, lembre-se: "Os Òrìsàs são os Deuses da nossa Religião", por isso, louve-os, aplauda-os, abrace-os, mas, sobretudo, RESPEITE-OS. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos sempre Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Como Orunmilá, o Deus da Divinação, se Casou com a Filha da Deusa do Mar

Como Orunmilá, o Deus da Divinação, se Casou com a Filha da Deusa do Mar
Orunmilá queria se casar com a filha da Deusa do Mar. No entanto, ele sabia que outras 400 Divindades já havia tentado sem sucesso algum. Desse modo, ele consultou o oráculo a fim de saber como proceder. Na consulta, ele descobriu que deveria realizar uma oferenda para Èsù, sendo dois galos e 1 galinha (todos vivos), um rato..., um peixe e duas bolsas grandes de esteira e búzios. Orunmilá fez a oferenda e foi à casa da Deusa do Mar, levando consigo as duas bolsas de esteira. Quando ele chegou, Èsù piscou fazendo com que todos que olhassem Orunmilá o achassem um homem muito bonito. Quando a filha da Deusa do Mar viu Orunmilá, se apaixonou por sua beleza, dizendo à sua mãe que, era com ele que ela queria se casar. A Deusa do Mar disse que 400 Divindades já haviam pedido para casar com sua filha, mas que ela recusou todos. Assim sendo, a Deusa do Mar queria saber como ele Orunmilá iria fazer para escapar da cólera das outras 400 Divindades. Orunmilá disse que a levaria embora e que ele resolveria como escapar das demais Divindades. Conforme a Deusa do Mar havia anunciado, quando as 400 Divindades ficaram sabendo que Orunmilá iria se casa com a sua filha, elas ficaram inconformadas. Irritadas, elas cavaram um buraco esquerdo à casa da Deusa do Mar, cavaram outro ao lado direito e um à frente. Dessa forma, por onde eles saíssem eles ficariam presos. Quando Èsù viu isso, ele pegou as oferendas que Orunmilá havia feito. Ele pegou os dois galos e jogou no buraco do lado esquerdo e outro no lado direito, fechando-os. No buraco feito à frente da casa da Deusa do Mar, Èsù jogou a galinha, fechando-o também. Assim Orunmilá e a Deusa do Mar, conseguiriam fugir. Mas, precavidas, as 400 Divindades falaram ao barqueiro da cidade que, caso um Divinador tentasse atravessar o rio acompanhado de uma mulher, ele deveria chama-las imediatamente. Èsù avisou Orunmilá que por sua vez, pegou as duas bolsas feitas de esteira, colocando a sua futura esposa entre elas, formando um pacote único. Ao chegar no barco, o capitão não chamou as 400 Divindades, pois ele só via Orunmilá e as sua grande mala. O capitão olhou para Orunmilá e perguntou a sua profissão. Ele disse que fazia bolsas de esteiras. Dessa forma, o capitão deixou ele entrar ao barco, levando-o para o outro lado da margem. Ao chegar lá, Orunmilá desuniu as duas bolsas, fazendo surgir a filha da Deusa do Mar. Eles finalmente se casaram. Orunmilá cantava e dançava, dizendo que, não havia abismos ou dificuldades que o fizesse desistir do seu Destino. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

A disputa entre Osanyin (Medicina) e Orunmilá (Sacrifício)

A disputa entre Osanyin (Medicina) e Orunmilá (Sacrifício)
Osanyin e Orunmilá eram inimigos e ambos divinizavam para o Rei. Mas tanto Osanyin como Orunmilá, queria provar quem era o mais poderoso dentre todos os Divinadores. Osanyin disse que ele era a própria Medicina e que ninguém era mais poderoso que a medicina e assim Osanyin desafiou Orunmilá (Sacrifício), dizendo que ele o Dono das Folha...s, era o mais poderoso. Osanyin disse: "Se você Orunmilá é tão poderoso, não há porque recusar o meu desafio, vamos nos enterrar no chão e depois de 320 dias, as pessoas podem nos retirar". Orunmilá aceitou o desafio, sendo acordada uma data para que os dois fossem enterrados, diante de todos da cidade. Orunmilá ficou preocupado e buscou os Divinadores. Os Divinadores lhe disseram: "A pele que cobre o estômago, não deixa-nos ver os intestinos". Você deverá realizar um sacrifício, com dois pedações de pano branco, com um rato gigante, com um grande caranguejo, com Ewure, Com Adiye e Eyele, você deverá ofertar 28.000 búzios do lado esquerdo, 28.000 búzios do lado direito e 28.000 búzios no centro. Os Divinadores informaram o que deveria ser ofertado e o que Orunmilá deveria levar consigo para ser enterrado. Orunmilá seguiu as orientações e realizou o sacrifício. Eles disseram que Orunmilá deveria preparar uma medicina (Oogun), que essa medicina ele deveria colocar debaixo de sua roupa, antes de ser enterrado. Ele deveria pegar os dois pedaços de pano branco e enrolá-los e também colocar debaixo da sua roupa, assim Orunmilá fez. No dia marcado, Orunmilá apareceu vestindo uma roupa bonita que lhe permitia esconder tudo o que os Divinadores mandaram ele levar. Orunmilá então foi enterrado. Tão logo ele foi enterrado, ele soltou o rato gigante que, começou a cavar até que formou uma pequena entrada de ar, fazendo com que Orunmilá não morresse sufocado. Orunmilá fez o mesmo com o carangueijo, que começou a cavar em busca de água, quando achou, a água começou a gotejar no buraco, permitindo que Orunmilá a bebesse, não morrendo de cede. Isso aconteceu por longos 320 dias. Osanyin não sacrificou nada, ele também foi enterrado por longos 320 dias. Depois de 320 dias os moradores da cidade foram no local onde eles estavam enterrados, eles começaram a tirar a terra do buraco de Osanyin. Eles encontraras pedaços de louças, pedaços de ferro e trapos de pano, Osanyin havia morrido, seus filhos choraram a sua perda, falando: "Medicina Morreu, Medicina Morreu". Eles começaram a tirar a terra do buraco de Orunmilá. Quando Ornumilá ouviu o barulho, ele pegou os dois pedaços de pano branco que os Divinadores haviam mandado ele levar, ele desenrolou esses panos e se vestiu com eles. Quando acabaram de tirar toda a terra, Orunmilá surgiu com suas vestes brancas, as pessoas louvaram Orunmilá, Orunmilá era o mais poderoso. Seus filhos exclamavam: "Sacrifício Está Vivo, Sacrifício é mais poderoso que mediciona"!!! Orunmilá imediatamente ordenou que lhe trouxessem um chocalho de Osanyin, um Pakun, um pássaro Kowe e um pássaro Awoko. Orunmilá preparou tudo, fez um poderoso encantamento e disse: "Utilizem esse chocalho, Osanyin irá responder". Eles fizeram e Osanyin respondeu. Eles falavam e dançavam: Sacrifício é mais poderoso que Medicina! Após esse dia, nunca mais ousou desafiar Orunmilá, o Grande Deus da Divinação. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Pai Pecê, fala sobre o Candomblé Tradicional e a Reafricanização.

Pai Pecê, fala sobre o Candomblé Tradicional e a Reafricanização.
A cada dia, nos deparamos com a ansiedade das pessoas em querer mostrar um "Novo Candomblé", seja para os filhos de sua comunidade, seja para as pessoas que visitam seus terreiros. Muitos que defendem a "reciclagem" do Candomblé ou a reafricanização, se fundamentam afirmando que o "Antigo Candomblé da Bahia" não é como na África, q...ue foi adaptado ao Brasil e, sendo assim, qual o problema em se reciclar, em criar um novo Candomblé? Ou mesmo reafricanizar o existente. Antes de tudo, em relação a fundação do Candomblé da Bahia, temos que ter em mente as dificuldades que cercavam as pessoas, sobretudo os africanos que foram escravizados e, posteriormente, os seus descendentes que aqui estavam. Hoje, é muito fácil dizer que o Candomblé da Bahia é diferente da África, mas poucos refletem sobre as questões que motivaram essa diferença, que foi essencial para a manutenção de uma cultura. Sim, há diferenças entre o Candomblé da Bahia e a Religião dos Òrìsàs existente na África. Primeiramente por questões culturais. No Brasil, o Candomblé foi erigido de forma clandestina, por pessoas que eram cerceadas de se expressar, de pensar e até mesmo de viver, ou será que alguém tem a ilusão de que a vida desses africanos foi fácil? Diante desse cenário hostil e violento, como cultuar em praças e ruas os nossos Òrìsàs, como na África? Isso era algo inconcebível (e ainda é), surgiram assim, as festas nos barracões, durante a noite, às escondidas, bem como, a estrutura do Candomblé como conhecemos hoje. Alguns costumes e elementos foram adaptados no Brasil não com o objetivo de criar algo novo, mas sim, com o objetivo de perpetuar uma memória ancestral. Hoje conseguimos comprar de forma fácil sementes, favas, penas e roupas africanas, mas como fazer isso naquela época? Primeiro existia a necessidade da sobrevivência e em segundo, o comércio não era tão fácil e comum como hoje, afinal, a África não está aqui ao lado. Desse modo, toda adaptação que a religião sofreu à época, foi fundamental para que o Candomblé se fundamentasse no Brasil. Isso não acontecia pelo prazer ou vaidade daqueles negros africanos, mas pelo fato de ser a única forma de manter a cultura trazida nos calabouços dos navios negreiros. No entanto, nenhuma adaptação atingiu a essência, o mistério, a tradição. Alguns dizem que cantamos errado que é necessário reciclar as palavras, que nossas evocações não são como na África, etc. Mas quando analisamos com cuidado o dialeto yorùbá (Candomblé de Ketu) ou o dialeto Fongbe (Candomblé de Jeje) falado hoje na África, identificamos uma grande poluição linguística oriunda do novo mundo, sobretudo dos povos colonizadores. Fazendo um paralelo, será que um jovem brasileiro de hoje, consegue compreender com perfeição o português falado na Bahia ou Rio de Janeiro de 300 anos? Certamente não, sendo que ele não está acostumado com a língua arcaica. Isso é o que acontece com alguns jovens africanos ou estudiosos que sugerem que nossas palavras, ditas e cantadas no Candomblé da Bahia, não são yorùbá ou fongbe. Eles são de outra geração, estão comparando coisas incomparáveis. Não podemos nos esquecer, ainda que, o dialeto religioso é distinto do dialeto "social", pois existem palavras que só são conhecidas pelos adoradores de Òrìsà. Talvez muitas pessoas também não se deem conta de que, após o período da escravidão, ficamos longos e mais longos anos sem receber em massa, novos africanos. Dessa forma, os tradicionais Terreiros de Candomblé, buscaram de forma veemente a manutenção daquilo que foi implantado pelos seus fundadores africanos, sendo que essa era uma das únicas maneiras de se preservar não somente a sua religião, mas a sua identidade cultural, moral e ancestral. Em contrapartida, a África sofria diversas mudanças, culturais e religiosas. Desse modo, a religião dos Òrìsàs na África hoje, também é diferente da Religião dos Òrìsàs na África de 300 ou 400 anos, nesse âmbito, qualquer tipo de comparação é totalmente equivocada. Outro ponto que passa muitas vezes despercebido pela grande maioria, é que a África é um continente e não uma província em que todos os seus habitantes comungam do mesmo pensamento e tradições. Ou seja, quando um Babalawo Africano, oriundo de Ifon desembarca no Brasil e se depara com costumes de uma casa que foi fundada por negros de Oyo, certamente haverá choque de cultura. O mesmo acontecerá com o negro de Oyo que chegar aqui e for visitar uma casa fundada por negros Egba, embora africanos, a cultura é distinta. Para reforçar isso, basta pensarmos no Brasil, a cultura do Baiano é diferente da Carioca, que é diferente da Paulista e assim sucessivamente. Não precisa nem mesmo sair de um Estado. A cultura do Baiano de Salvador é distinta da cultura do Baiano do Recôncavo, são culturas próximas, mas distintas. A cultura do Paulistano (capital) é distinta do Paulista (interior). Porque então, nós Brasileiros temos que pensar que o nosso Candomblé, que o nosso yorùbá tem que ser igual ao de todo africano que chegue ao Brasil, independente da parte da África que ele seja? Não podemos jamais esquecer, a África é um continente e não uma aldeia isolada que não sofreu adaptações e mudanças culturais ao longo do tempo. Outro fato importante é o que chamamos no Brasil de Tradição de Asè/Família de Santo. Existem certas particularidades que pertencem a uma família/Asè e que não é realizada em outra família, sendo assim, como querer comparar à risca com a África? Talvez alguém diga: "Mas na África não é Assim"? Sim, também é, no entanto, as pessoas não sabem disso ou se negam a enxergar. O que chamamos no Brasil de Asè de família, na África é chamado de "Awo". Isso significa que na África, uma pessoa pode pertencer a um determinado Awo que segue algumas características distintas de outro Awo (de outra família de Asè). Talvez um ritual é realizado em um Awo, mas no outro não. Talvez haja um interdito em um determinado Awo e no outro não. Não podemos deixar que exista um novo Apartheid, desta vez motivado pelas diferenças existentes no Candomblé do Brasil em comparação com a África. Nós valorizamos como poucos a cultura africana e obviamente, porque essa cultura também é nossa. Mas observo com preocupação que nossa cultura africana está sendo desprezada e, muitas vezes atacada. Nós também somos os guardiões do culto ao Òrìsà, hoje se existe por alguns, uma busca pela África, é em decorrência da cultura apresentada por nós, descendentes desses africanos que derramaram o sangue para defender aquilo que acreditavam. Peço que valorizem a nossa cultura e o sangue derramado pelos nossos ancestrais. O Candomblé no Brasil conseguiu superar muitos obstáculos, a escravidão e o preconceito (que ainda sofremos). Nossa religião possui casas centenárias, que carregam em suas terras, paredes, árvores, pedras e ferro, não somente a memória ancestral do povo negro, mas a herança cultural e religiosa, que conseguiu de forma próspera chegar aos dias de hoje. O Candomblé não é imutável e talvez nada seja. Sim, há muitas coisas que o Candomblé no Brasil precisa avançar, uma delas é se valorizar. Valorizar seus ancestrais e sua cultura. Precisamos igualmente avançar nos aspectos sociais. Precisamos de avanços nas iniciativas que contribuam para a diminuição das distâncias sociais. Precisamos de avanços nas iniciativas que preservem a natureza (como é triste ir à mata ou cachoeira e deparar com alguidares, garrafas, plásticos, etc.). Precisamos de avanços no meio político, de avanços na educação das nossas tradições para as nossas crianças. Esses sim são alguns pontos que precisam evoluir rapidamente na nossa religião. Precisamos, sobretudo, avançar naquilo que verdadeiramente move a nossa religião. A Fé! De nada adianta a busca por uma tradição que já mudou mesmo no berço da civilização se não existir a fé, se não existir a crença na Divindade para a qual nos prosternamos. Que nosso Pai Òsùmàrè, abençoe todos e sejamos unidos e munidos de fé. Pai Pecê - Babalòrìsà do Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Dia em Que Òsóòsì, Aplacou a Grande Mãe Ancestral, Ìyàmì Àgbá

O Dia em Que Òsóòsì, Aplacou a Grande Mãe Ancestral, Ìyàmì Àgbá
Aqui nesse espaço, já tivemos a oportunidade de discorrer diversas histórias relacionadas aos nossos Deuses, os Òrìsàs. Hoje vamos escrever uma das histórias daquele que é considerado o grande Patrono da Nação de Kétu, o grande caçador Òsóòsì. Uma antiga história yorùbá, conta que Oduduwa, o grande rei da dinastia Nàgó, celebrava an...ualmente a "Festa do Inhame Novo", agradecendo a fartura das colheitas realizadas a cada ciclo. Nessa época, somente após a realização dessa grandiosa festa, é que era permitido o consumo daquilo que a terra oferecia ao povo. Fazendo um paralelo, essa festa é como o Pilão de Òsógiyán, que anualmente realizamos no Terreiro de Òsùmàrè. Em uma dessas festas, o grande Rei Oduduwa, estava feliz e cercado por suas esposas. Todos os reis das cidades próximas a Ifé, chegavam e saudavam Oduduwa. No entanto, Ìyàmì, a grande mãe ancestral, descontente com aquele festejo, encaminhou à Ifé, um pássaro gigantesco, para amedrontar todos que se reuniam para comemorar a colheita dos inhames novos. Quando aquele pássaro assustador começou a voar sobre Ifé, as pessoas entraram em pânico e começaram a correr amedrontadas. Oduduwa, por sua vez, mandou que trouxessem os melhores e maiores caçadores, para abater aquele pássaro que estava acabando com a sua festa. Desse modo, da cidade de Ido, chegou Osotogun, o caçador de 80 flechas. Mesmo com todas as suas flechas ele não conseguiu atingir o pássaro encaminhado por Ìyàmì, acabando por falecer diante de todos. O mesmo aconteceu com o caçador de 40 flechas (Osotogi), que veio da cidade de More e com Osotadota, o caçador de 50 flechas, oriundo da cidade de Ilare. A medida que os caçadores morriam, a população ficava cada vez mais apavorada. Por fim, Oduduwa mandou que chamasse de Irema, Osotokansoso, o caçador de uma única flecha. Ao saber que Osotokansoso estava à caminho de Ifé para caçar o pássaro que já havia matado três importantes caçadores, Ìyá Wunbanbá foi rapidamente consultar Ifá, para saber como seu filho poderia ter sucesso nessa empreitada. Por meio do oráculo sagrado, Ifá disse que Osotokansoso estava caminhando para a morte, mas que, se a oferenda correta fosse realizada imediatamente, ele teria sucesso e seria reconhecido pelo povo pelo seu feito. Assim sendo, Ìyá Wunbanbá realizou a oferenda de uma Adiye, abrindo-lhe o peito e evocando as seguintes palavras: "Que o Peito dessa Adiye recebe essa oferenda". Nesse exato momento, Osotokansoso estava mirando sua flecha em direção ao poderoso pássaro. Contudo, Ìyàmì que comandava as forças do pássaro se distraiu para receber a oferenda feita por Ìyá Wunbanbá e, o caçador de uma única flecha, conseguiu aplacar aquele pássaro que aterrorizava Ifé, sendo aclamado por todos e por Oduduwa. Aquele que até então era desconhecido pela grande maioria, passou a ser popular, sendo chamado de Osowusi. Esperamos, uma vez mais, ter contribuído para o esclarecimento e disseminação da Cultura dos Òrìsàs. Que Òsùmàrè Araka, continue sempre olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Ògán no Candomblé Parte I

O Ògán no Candomblé Parte I
Quando iniciamos a série de postagens discorrendo sobre o papel, importância e postura do Iyawo dentro do Terreiro de Candomblé, recebemos dezenas de mensagens, pedindo para que abordássemos também a figura do Ogan, razão pela qual, estamos iniciando hoje essa série. O Terreiro de Òsùmàrè, sempre foi um importante seleiro de renomados Ògáns. Grandes mestres surgiram aqui, tai...s como Posidônio, Paisinho, Januário, Manoel Alagbé e Erenilton, todos considerados e reconhecidos no chamado Candomblé da Linha 15 (berço de grandes Terreiros da Bahia), pela grande versatilidade frente aos atabaques e pelo grande domínio das antigas cantigas dos Òrìsàs. A "nova geração" de Ògáns da Casa de Òsùmàrè, segue o ensinamento e postura desses grandes mestres, perpetuando assim, essa importante história. Além disso, e principalmente, esses e outros importantes Ògáns, foram e são reconhecidos pela postura e papel dentro da Casa de Candomblé. Quando falamos em Ògán, muitos pensam em tocadores de atabaque, mas o papel do Ògán em uma casa de asè abrange muitos mais que a parte musical nos terreiros. Os Ògáns são como uma espécie de guardiões do Terreiro. Além de contribuir com o zelo dos Òrìsàs, eles também zelam pelo Terreiro. Um grande Ògán, ao chegar à Casa de Candomblé, após se purificar por meio das folhas sagradas, se vestir adequadamente e, saudar o seu Sacerdote, busca realizar sua funções com esmero. Mas afinal, quais são essas funções? Conforme mencionado, além do cuidado com os atabaques (manutenção), também é papel do Ògán contribuir para que tudo caminhe bem no Terreiro. Um grande Ògán, busca defender o a sua comunidade, o seu asè de forma contundente, fazendo de tudo para que o mesmo seja preservado. Recordamos aqui, o saudoso Elemoso Agnelo, Ogan do Terreiro da Casa Branca, que de forma contumaz, lutou para reaver uma parte do terreno do seu Asè, que havia sido indevidamente tomado por um posto de gasolina. Um grande Ògán, busca preservar as edificações do seu Terreiro, estando sempre atento para qualquer e eventual dano, como, por exemplo, a necessidade da troca de uma telha, ou um degrau danificado em uma escada. Um grande Ògán, se dedica em diversos âmbitos do Candomblé, como aprender os toques, os cânticos, os animais, as folhas. Existem Ògáns que são exímios conhecedores de folhas e suas virtudes, que aprenderam desde como colher as sagradas ervas dos Òrìsàs até as suas propriedades medicinais e religiosas. Cabe ao Ògán o cuidado especial e indispensável com os animais que serão ofertados aos Deuses, de modo que a oferta seja aceita de forma plena. Um grande Ògán, sabe como entregar um sacrifício (ebó), de modo que o mesmo seja conduzido conforme a necessidade específica de cada problema. Todo esse conhecimento demora anos, cabendo ao Ògán estar sempre atento às palavras e conselhos do seu Sacerdote que conduz o seu aprendizado religioso. Amanhã, vamos falar sobre a postura de um Ògán no salão, durante as festividades religiosas. Que Òsùmàrè Aráká continue sempre olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Ògán no Candomblé Parte II

O Ògán no Candomblé Parte II
Em continuidade ao artigo iniciado sobre Ògán, hoje vamos falar um pouco sobre a postura dessa importante figura no salão, durante as festividades. O Ògán sempre ocupou um papel de destaque durante as cerimônias festivas dos Òrìsàs, são eles que, por meio da sua arte musical contribuem para trazer os Deuses à terra. Conforme mencionado no artigo anterior, a Casa de Òsùmàrè sempre foi um impo...rtante seleiro dos chamados mestres, basta recordarmos os nomes como Paisinho, Manuel Alagbe e Erenilton. Mas, fato é que, além do virtuosismo frente aos atabaques, ou o conhecimento de milhares de cânticos evocatórios, há um fator que faz com que um Ògán seja reconhecido pelas pessoas e, sobretudo, pelos Deuses, esse fator é a postura religiosa que o mesmo possui ao longo da cerimônia. Um grande Ògán, que serve de exemplo para os seus discípulos, mais que um bom tocador/cantor, tem que ter uma postura condizente com o seu importante papel na comunidade-terreiro. Aqui em Salvador, os Grandes Mestres, sempre vão às festas muito bem alinhados. Os grandes Ògáns da Bahia fazem questão de estarem bem vestidos, eles dizem que antigamente, não se via um Ògán de calça jeans no Candomblé ou de camiseta. Além das vestimentas, esses Ògáns são muito atentos ao andamento das festas, eles sabem o que cantar e quando cantar. Quando reunidos, eles formam uma espécie de irmandade, em que todos se entendem, se confraternizam, sem qualquer tipo de disputa ou briga. Um grande Ògán, toca e canta para os Deuses e não para as pessoas que estão na festa. Um grande Ògán, sempre consulta o seu Sacerdote, para saber como será o andamento da festividade, para qual Divindade poderá prolongar-se um pouco mais nos cânticos, ou não. Um grande Ògán, procura permanecer o maior tempo possível no salão, evitando sair, principalmente quando o Òrìsà está na sala. Ele está sempre atento aos visitantes que chegam, comunicando o Sacerdote e, muitas vezes, os recepcionando. Um grande Ògán respeita incondicionalmente os Òrìsàs, ele sabe a hora que deve parar de cantar. Um grande Ògán procura aprender os cânticos do seu Asè, da sua raiz, evitando cantar algo que somente ele conhece, afinal, para ele o importante é ver o Òrìsà feliz com o conjunto e não com o solo. Hoje é fundamental que os Ògáns procurem se unir e comungar com o Òrìsà. É fundamental que o Ògán respeite os seus mais velhos e a liderança do seu Terreiro. Aqui em Salvador, ainda temos momentos especiais, nos quais grandes e renomados Ògáns quando se encontram realizam festas históricas para os Deuses, mas isso só ocorre por um motivo, eles fazem pelos Deuses e não pelas pessoas. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

O Candomblé é a Religião da Natureza! Mas Nós Sabemos Preservá-la?

O Candomblé é a Religião da Natureza! Mas Nós Sabemos Preservá-la?
Podemos afirmar que o Candomblé é uma religião que cultua a natureza, sendo que os nossos Òrìsàs possuem o domínio sobre cada elemento: água, terra, ar, fogo, etc. Nossos cânticos evocam os poderes das águas dos rios, lagos, poços e oceanos. Nós reverenciamos a chuva, tão sagrada e especial. Os Òrìsàs se comunicam por meio do bril...ho do raio, pelo som que brada do trovão. Òsùmàrè desenha o céu com as cores do arco-íris. Òsanyìn está vivo em cada planta, desde a mais singela à mais frondosa, onde habita Iroko Oluwere Baba Igi. Obaluwaiye está vivo no redemoinho, na sagrada terra em que os grãos de Òrìsà Oko se multiplicam, enfim, os Òrìsàs e a natureza se misturam, se confundem, se completam. Mas, apesar de tudo isso, estamos sabendo como preservar essa natureza tão rica e essencial para a sobrevivência da nossa religião? No último mês, quando da realização de uma obrigação em uma cachoeira, nosso querido Pai Pecê, ficou assustado e muito decepcionado com a quantidade de materiais que agridem de forma brutal a natureza, depositados naquele local, como se fosse uma espécie de lixão. Naquele espaço, que temos como sagrado, onde a natureza deveria ser ovacionada pelo nosso povo, encontravam-se centenas de garrafas, plásticos, restos de velas e muitos, muitos alguidares, sendo que grande parte já quebrados. Em verdade, a cena remetia-nos as imagens de um filme de terror ou de um filme futurista, no qual o único sinal de natureza é a existência de antigas fotos em museus, para que as crianças tenham ideia de um mundo já inexistente. Sequer era possível apreciar o espelho d'água, que insistentemente tentava burlar as barreiras criadas pelo lixo acumulado. Somos Àbòrìsà (adoradores de Òrìsà), por consequência, adoradores da natureza, dessa forma, é inadmissível imaginar que alguém que adora e venera a natureza, possa igualmente agredi-la de forma tão agressiva. É muito importante conscientizarmo-nos de que: Alguidar não é oferenda! Garrafa não é oferenda! Plástico não é oferenda! Existem centenas de alternativas sustentáveis que podem e, principalmente, devem ser utilizadas pelo nosso povo. O antigo provérbio yorùbá já diz: Sem folhas, não há Òrìsà. As folhas são excelentes alternativas aos alguidares. Quando for à natureza, realizar qualquer tipo de oferenda, ao invés de utilizar alguidares ou terrinas de louça, utilize Ewé Lará (Folhas de Mamona) ou Ewé Agba-o (Folhas de Embaúba). Líquidos podem ser colocados em Ado (pequenas cabaças), ao invés de garrafas ou copos de vidro/plástico. Dessa forma, você estará contribuindo para a preservação de um bem excessivamente precioso para a nossa religião. Tanto as folhas (mamona e embaúba) como as pequenas cabaças, são elementos que se decompõem de forma muito breve, não trazendo dano algum à natureza, muito pelo contrário. Além disso, não causam riscos às pessoas, como os pedaços de vidros e louças que podem causar ferimentos. Em uma mata que há tempos não recebe a água das chuvas, uma vela pode causar incêndios. Por isso, é essencial que, a utilização de velas seja restrita ao espaço físico dos Terreiros. Nós somos os verdadeiros guardiões da natureza, por isso, devemos pensar e agir como tal. Faça a sua parte, conscientize os seus filhos, netos e amigos da religião, para que protejam a nossa natureza. Se você for à mata, rio ou cachoeiras e deparar-se com materiais que degradam os nossos espaços sagrados retire-os jogando-os no lixo. Em breve, nós do Terreiro de Òsùmàrè, vamos nos reunir para retirar o lixo de um importante espaço sagrado de Salvador (vamos comunicar com antecedência para que todos também possam participar), mas essa iniciativa deve ser multiplicada. Reúna a sua comunidade, escolha uma mata, um rio, uma cachoeira e recolha os materiais como garrafas, plásticos e alguidares. Convoque as pessoas por meio das redes sociais e contribua para a preservação e edificação da magnifica religião dos Òrìsàs. Registre a iniciativa por meio de fotos e nos encaminhe para que possamos divulga-las. Não se esqueça, cada um de nós possui um importante papal na sociedade! Que Òsùmàrè, o Pai da nossa Comunidade, cubra cada um com bênçãos e felicidades! Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

A Ekede no Candomblé

A Ekede no Candomblé
Em atenção às dezenas de solicitações que recebemos após as postagens sobre os Ògáns, vamos falar sobre outra importante figura dentro dos Terreiros de Candomblé, as Ekedes (Èkèjí, Àjòyè, Ìyároba, Makota, a depender da tradição da casa ou nação). As Ekedes são mulheres que não são incorporadas, mas sim, escolhidas pelas Divindades, para zelar por elas e pelo Sacerdote da Cas...a. São pessoas de grande importância na estrutura religiosa da comunidade, que são admiradas por todos. Em grande parte das ocasiões, ao longo das festividades, algum Òrìsà escolhe entre as pessoas presentes, uma mulher para suspender/indicar como Ekede, é um momento de grande alegria para todos, onde os filhos da comunidade comemoram. Futuramente, essa mulher poderá, então, ser confirmada como Ekede. Se fossemos "ranquear" a principal função de uma Ekede, poderíamos afirmar que é zelar pelo Òrìsà quando esse está incorporado em um filho/filha. Uma grande Ekede, sempre está muito atenta aos passos do Òrìsà, ela verifica se há a necessidade de enxugar o rosto da pessoa incorporada, analisa as paramentas, se estão machucando ou se, por ventura, estão se desprendendo das demais vestes. As Ekedes, em verdade, começam a zelar pelo Òrìsà, antes mesmo da manifestação, sendo que elas verificam todas as roupas e ferramentas com antecedência, garantindo assim, que as Divindades sejam tratadas com muito carinho. Algumas, inclusive, se especializam como costureiras, bordadeiras, somente para ter o prazer de confeccionar as roupas dos Òrìsàs. O que observamos, com bastante atenção, é que esse carinho/amor desprendido por muitas Ekedes as tornam referência em um Terreiro, sendo respeitadas e admiradas pela comunidade. Quando o Órìsà manifesta alguém, elas rapidamente aprontam tudo, garantindo tranquilidade aos Omo Òrìsà. Elas acompanham os Deuses ao longo das danças, se comunicam com eles e, por vezes, intermediam a sua vontade aos Babalòrìsà/Ìyálòrìsà, Ògáns e outras Ekedes. Esse trato direto com os Òrìsàs as torna muito próxima deles, razão pela qual, as Ìyáwò e Egbon possuem tanto carinho e respeito por essas senhoras, por vezes, as chamando de mães. As Ekedes, também, dispensam igual carinho e atenção aos seus Sacerdotes, zelam pelos seus pertences e ficam sempre atentas a qualquer pedido/necessidade. Muitas vezes, atuam como uma espécie de "relações públicas", representando o Terreiro e recepcionando os visitantes mais ilustres. As Ekedes, diferente das Ìyáwò e Egbon, não utilizam as saias de baiana com anáguas. A vestimenta das Ekedes varia entre as casa, mas aqui em Salvador, elas usam os chamados "vestidos nago" ou saia sem roda (anágua), permitindo dessa forma, uma maior flexibilidade para as suas atividades (veja a foto do título, com as Ekedes do Terreiro de Òsùmàrè). Aqui em Salvador, somente pela roupa já conhecemos quem são as Ekedes do Terreiro. As Ekedes são pessoas de grande importância nas Casas de Candomblé, que por meio das suas ações, conseguem contribuir de forma significativa para que o período em que o Órìsà permanece incorporado, seja tranquilo e apaziguador, seja para o filho incorporado, para o Órìsà e, mesmo para toda a comunidade. O que torna uma Ekede referencia para as demais e para o Terreiro, essencialmente é sua postura perante o Òrìsà e, perante o seu Sacerdote. Para uma grande Ekede, o seu objetivo principal é conseguir tratar o Òrìsà como carinho e amor, essas são as características que tornam uma Ekede em uma grande Ekede. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Nunca Se esqueça de Render Homenagem à Èsù!

Nunca Se esqueça de Render Homenagem à Èsù!
Hoje vamos transcrever uma antiga história de Èsù, que mostra a peculiar personalidade dessa Divindade, sobretudo quando as pessoas lhe esquecem de render homenagens. Havia dois grandes amigos de infância, que num dia como hoje, segunda-feira, se esqueceram de prestar homenagem à Èsù. Os dois foram para a roça trabalhar. As roças eram separadas por um ...pequeno canteiro. Èsù estava bastante zangado, sendo que os amigos não lhe ofereceram nada naquela segunda-feira. Èsù confeccionou um Filá (espécie de chapéu) com duas cores (preto e vermelho). Èsù preparou esse Filá de um modo que, quem estivesse à sua esquerda conseguiria ver somente a cor preta do Filá e quem estivesse à sua direita, conseguiria ver somente a cor vermelha do Filá. Após confeccionar o Filá, Èsù o colocou na cabeça e foi exatamente ao canteiro que separa a roça dos dois amigos e ficou por lá, esperando que os mesmos passassem. Quando os amigos passaram (cada um de um lado do canteiro), Èsù os interpelou dizendo: "Bom trabalho senhores" e seguiu sem mais nada falar. Feito isso, um dos amigos disse: "Quem é esse homem com o Filá vermelho"? O outro amigo, por sua vez, respondeu: "Você quis dizer Filá preto, pois ele estava com um Filá preto e não vermelho como você falou". Dessa forma, os antigos amigos começaram a brigar. Um afirmando que o outro era mentiroso. Eles brigaram muito, muito... Mas, tudo isso, só ocorreu porque eles não prestaram homenagem à Èsù. Por esse motivo, jamais se esqueça de render homenagem ao Deus do Dinamismo! Laroye!!! Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos.

Quinta, 17 Janeiro 2013

Albinos, as Pessoas Abençoadas por Òsàlá

Albinos, as Pessoas Abençoadas por Òsàlá
Com efeito, podemos afirmar que a religião dos Òrìsàs, por meio das suas histórias, dogmas e costumes, consegue esclarecer tudo o que existe no mundo. Nessa oportunidade, vamos transcrever uma antiga história Nàgó, que nos explica o surgimento de pessoas albinas, que são consagradas à Òsàlá, mas que são dessa forma, por conta de uma magia inicialmente desenvolvida e praticada por Èsù, que a perdeu após uma disputa insensata com a grande Divindade Funfun. Essa história nos ensina igualmente, que jamais devemos querer ser mais que os nossos mais velhos, que devemos respeitar a sua antiguidade, que não podemos aumentar a nossa idade de iniciação e que sempre devemos seguir as orientações dos nossos sacerdotes. Como costumamos dizer aqui na Casa de Òsùmàrè: "orelha não passa cabeça". Naquela época, Èsù queria ganhar notoriedade e, para isso, queria convencer a todos que ele era mais antigo que Òsàlá. Ao longo de muito tempo eles discutiram com o objetivo de provar qual dos dois era o mais antigo. Òsàlá afirmava que quando Èsù surgiu, ele já estava no mundo há muito tempo. Diante desse cenário, as demais Divindades se reuniram, propondo que Èsù e Òsàlá se confrontassem, com o objetivo de provar qual era o mais antigo. Ambos foram consultar Ifá, o Deus da Adivinhação, para saber o que deveria ser feito. Òsàlá seguiu todas as recomendações de Ifá, por outro lado, Èsù as negligenciou. Quando chegou a data do confronto, todas as Divindades se reuniram para presenciar Èsù e Òsàlá disputarem o posto de mais antigo. Òsàlá inicialmente tocou Èsù que imediatamente caiu, fazendo com que as Divindades exclamassem: "Epa Baba". Èsù, insatisfeito, levantou-se e tocou a cabeça de Òsàlá, tornando-o um anão. As Divindades ficaram impressionadas e, também, exclamaram "Epa Èsù". Ao longo de um grande espaço de tempo, Èsù e Ósàlá ficaram disputando, tentando mostrar quem tinha mais poder, quem tinha mais magia e, por consequência, quem era o mais antigo. Num dado momento, Èsù tirou de sua cabeça uma pequena cabaça (Ado), na qual tinha uma poderosa magia. Èsù pegou a magia existente dentro dessa cabaça e soprou em direção de Òsàlá, fazendo surgir uma grande nuvem branca de fumaça. Quando essa nuvem se desfez, Òsàlá não era mais um homem negro, ele havia si tornado totalmente branco (albino). Èsù começou a dizer: "Eu sou o mais velho, Eu sou o mais antigo, Eu tenho mais poder que Òsàlá". Òsàlá de forma muito serena e calma, retirou do seu Filá, um grande poder, impregnado de Asè. Ele pegou essa magia (Afose), tocando-lhe a boca, dando força às suas palavras. Feito isso, ele disse: "Èsù, eu ordeno que venha até mim e me entregue a sua cabaça com a magia que existe nela". Èsù, hipnotizado pela força da palavra de Òsàlá, foi em direção do mesmo, entregando-lhe a cabaça com a magia. Todos exclamaram: "Epa Baba". Òsàlá pegou a cabaça e mostrou a todos que estavam presentes, afirmando que, a partir daquele dia, somente ele, Òsàlá, teria o poder de tornar as pessoas albinas e que essa magia, que outrora pertencia a Èsù, era agora de sua propriedade, que ele era mais velho que Èsù. Todas as Divindades ficaram espantadas com a forma com que Èsù obedeceu à Òsàlá e, começaram a exclamar: "Alabalaasè" (ele é o senhor da força, do poder). As Divindades falaram: "Òsàlá é mais antigo que Èsù, Òsàlá tomou o poder de Èsù". Òsàlá disse que, todas as pessoas albinas que surgissem no mundo, seriam fruto da sua vontade e que, seriam consagradas à ele e abençoadas por ele. Nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos que os leitores e admiradores da nossa Fanpage, tenham gostado de mais essa importante história da tradição dos Deuses Africanos, os Òrìsàs. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Casa de Òsùmàrè

Quinta, 17 Janeiro 2013

Yewa Ajudou Ifá a Escapar da Morte

Yewa Ajudou Ifá a Escapar da Morte
Com muita satisfação e orgulho, hoje vamos falar um pouco sobre um Òrìsà que possui uma ligação muito forte com a nossa casa, a importante Divindade de Egbado, o Òrìsà Yewa. Sobre isso, recordamos que uma das mais aclamadas Ìyálòrìsàs do Terreiro de Òsùmàrè, Maria das Mercês - Mãe Cotinha, era filha desse Òrìsà. Uma antiga história Nàgó, explica a razão de Yewa possuir o dom da vidência. Essa história, explica igualmente, a personalidade do Òrìsà de Mãe Cotinha (Yewa Abiyamo), que durante sua gestão no Terreiro de Òsùmàrè, tomava à frente de grande parte das decisões da casa, não se amedrontando com as dificuldades que surgiam. A vidência e coragem de Yewa de Mãe Cotinha são até os dias de hoje, versadas em meio às comunidades do Candomblé da Bahia. Certa vez, Yewa com sua acurada vidência, ao predestinar que o Terreiro de Òsùmárè seria invadido por policiais, orientou aos filhos da casa que preparassem um banquete com muito vinho e água ardente. Feito isso, alguns policiais chegaram à Casa de Òsùmàrè, com o objetivo de finalizar a cerimônia, conforme repressão existente à época. No entanto, eles foram convidados pela própria Yewa a comer e beber. Esses policiais comeram e beberam tanto que, ao final do banquete, eles não tinham sequer condições de montar em seus cavalos e, por fim, acabaram dormindo na Casa de Òsùmàrè. Ao acordar, eles estavam totalmente envergonhados e nunca mais voltaram a ousar acabar com alguma cerimônia na Casa de Òsùmàrè. Isso não poderia ser diferente e as histórias relacionadas aos Deuses Africanos, nos ilustram o poder dessa grande Divindade. Yewa vivia às margens do rio que, futuramente receberia o seu nome, na cidade de Egbado. Todos os dias, Yewa caminhava rumo ao rio, com uma gigantesca cabaça, na qual ela carregava roupas para serem lavadas. Em uma dessas idas, quando Yewa estava cuidando das roupas, ele viu que havia um homem correndo em sua direção. Por ser muito destemida, mesmo sem saber de quem se tratava, Yewa permaneceu no mesmo lugar, não se amedrontando com o homem que corria em sua direção. Quando o homem chegou, esbaforido com a corrida, Yewa viu que era Orunmila Elerin Ipin Ibikeji Olodunmare, ou seja, o Deus da Divinação, o Testemunha da Criação, o Segundo de Olodunmare. Orunmila disse à Yewa que estava correndo, pois Iku (a Morte) estava à sua caçada e temia por sua vida. Yewa prontamente retirou todas as roupas que estavam na gigantesca cabaça, emborcando-a sobre Ifá e dizendo ao mesmo que, ele deveria ficar imóvel e sem falar nada, até que Iku fosse embora. Yewa sentou-se na cabaça e fingiu lavar as roupas, esperando que a morte chegasse. Yewa sabia que não corria risco, sendo que Iku não procurava por ela, mas sim por Orunmilá. Passado alguns minutos, Iku chegou ao local onde estava Yewa, indagando-lhe se havia visto um certo homem, informando as características de Orunmilá. Yewa prontamente disse que sim, que esse homem havia passado correndo, seguindo o curso do rio abaixo. Iku seguiu às margens do rio, no entanto, sem jamais conseguir encontrar Orunmilá. Passado o susto, Yewa levantou-se e Orunmilá surgiu agradecendo a imprescindível ajuda de Yewa. Como forma de reconhecimento por ela ter salvado sua vida, Orunmilá fez uma magia, conferindo à Yewa, o poder da vidência, como ele mesmo Orunmilá o tem. Orunmilá leu ainda, a mente de Yewa, que almejava por um filho. O Deus da Adivinhação disse à Yewa que ela seria mãe em breve e, por fim, a levou para casa, tornando Yewa sua esposa. Que Òsùmàrè Aràká continue sempre olhando e abençoando todos. Terreiro de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

O Dia Em Que Ejiogbe Enganou a Morte

O Dia Em Que Ejiogbe Enganou a Morte
O Dia em Que Ejiogbe Enganou a Morte? "Ago Ala" jogou para Ondesororo quando a morte estava à sua procura. Orunmila lhe disse que a morte estava por vir, mas que ela não reconhece aquele que tem no corpo, o sumo de "Buje" (um fruto africano). Orunmila disse que ele deveria fazer um sacrifício e que deveria untar o seu corpo com Buje e ficar totalmente nú em casa. Ondesororo era vermelho, mas d...epois de passar o sumo de Buje no corpo ele ficou negro. A morte procurou Ondesororo, mas ele não encontrava o homem vermelho, mas sim um homem negro. A morte recuou, pois não podia levar a pessoa errada. A morte não o matou, ela foi embora, e quando ela chegou em casa, Olodumare disse, "Onde está a pessoa que você foi buscar?" A morte disse que não encontrou o homem vermelho na casa de Ondesororo, somente um homem negro, totalmente negro, pois o viu nu. Olodunmare disse que Iku foi enganado por Ondesororo que havia feito os sacrifícios recomendados pelos Deuses. Olodunmare, então, ordenou que a morte não fosse novamente atrás de Ondesororo. Que Òsùmàrè Arákà continu olhando e abençoando todos! Casa de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Baba Pecê fala sobre a importância da ancestralidade no Candomblé

Baba Pecê fala sobre a importância da ancestralidade no Candomblé
Diferente de algumas crenças, no Candomblé, não há o costume de ir aos cemitérios para reverenciar os nossos antepassados no dia de finados. Entretanto, um expressivo número de Terreiros, utiliza o feriado católico para poder louvar e reverenciar os ancestrais. Sobre isso, nosso querido Pai Pecê comenta: "Aqui na Casa de Òsùmàrè,... nós cultuamos os nossos antepassados no primeiro domingo de cada ano, mas nós respeitamos muito o dia de finados. Muitas casas realizam as oferendas aos ancestrais nessa data por um motivo histórico. Antes mesmo da chamada época da Linha 15, aqueles grandes tios e tias que trouxeram a Religião dos Òrìsàs para o Brasil, eram fortemente perseguidos pela polícia e também pela igreja. Toda prática religiosa desses negros africanos era tida como contravenção, sendo muito difícil louvar os Òrìsàs e os ancestrais. Aqui mesmo na roça, o espaço onde fica os atabaques é recuado da parede do salão, pois se a polícia chegasse para rasgar o couro, bastava fechar esse espaço com uma cortina, preservando os instrumentos sagrados. Da mesma forma, esse povo antigo, de forma muito sábia, abraçou o dia de finados para celebrar as homenagens aos nossos ancestrais. Como naquela época, a maioria da população era católica (inclusive os policiais), aqueles africanos conseguiam louvar os ancestrais nos Terreiros de Candomblé de forma mais tranquila, sendo que nesse dia, a repressão era menor, pois mesmo os policiais iam aos cemitérios para cuidar da sepultura dos seus entes falecidos". O nosso Pai Pecê, nos fala ainda, que mesmo os Terreiros que não realizam oferendas aos ancestrais devem ter respeito por essa data. "Todos nós devemos respeitar essa data, não por ser um feriado católico, mas sim, por ser um dia em que muitos Terreiros evocam os ancestrais. A nossa religião possui um grande poder invocatório, então nesse dia, muitas energias estão pelo ar, sendo muito importante que as respeitemos". O Candomblé é uma Religião ancestral, na qual acreditamos que há vida após a morte. Nós devemos ter um sentimento de gratidão por aqueles que se foram e não podemos imaginar que a morte é o fim, conforme comenta Pai Pecê: "Nós acreditamos que a morte não é o fim, mas sim o recomeço. Muitas cantigas que são entoadas nos rituais fúnebres ou de celebração aos ancestrais falam isso. Na nossa religião, quando uma pessoa de nossa família falece, ela será cultuada e lembrada pelas gerações seguintes. Esses ancestrais, que nós chamamos de Esá e Egúngún, são muito importantes para o equilíbrio da vida aqui no plano que nós estamos. Mesmo após a morte, esses Esás são consultados de forma que eles orientem os passos que nós devemos seguir. No Candomblé é essencial mantermos os ancestrais apaziguados, de forma que eles nos propiciem uma casa com paz e com a força vital fundamental para a realização e transformação do Asè". Nosso Pai Pecê, alertar-nos que devemos sempre respeitar os nossos ancestrais e que, renegar e esquecer-nos de nossas origens e de nosso passado é a condenação sentenciada por nós mesmos do nosso futuro. Recorda, ainda, que a importância dos nossos antepassados é tão fundamental que, nós os reverenciamos mesmo antes de festejar os Òrìsàs, por meio da cerimônia do Ipade, que por meio de rituais e cantigas específicas, saúda e rende homenagens a toda ancestralidade do Terreiro. Por fim, nosso Pai Pecê fala que devemos refletir sobre a importância dos nossos ancestrais e que devemos de ser muito gratos por tudo que eles fizeram para que pudéssemos estar hoje, cultuado e louvando os Òrìsàs e os nossos antepassados. "Nesse dia muito importante, eu peço às pessoas do Candomblé que reflitam sobre a grande importância que nossos antepassados tiveram e ainda têm. Nossa cultura foi muito massacrada, nossos avós, bisavós, tataravós chegaram aqui na pior condição humana, a condição de escravo e mesmo assim, lutaram com muita determinação para que hoje pudéssemos cultuar os nossos Deuses. Os nossos ancestrais foram mulheres e homens de um grande saber, de uma inteligência única. Eles conseguiram superar todas as dificuldades que surgiram. Mesmo com tanta repressão, com tanta dor e lágrima, eles conseguiram perpetuar uma cultura tão linda que é o Candomblé. Todos nós, nesse dia, devemos agradecer muito as pessoas que mesmo sofrendo o ardor da chibata, conseguiram fundar esses Terreiros centenários, como a Casa de Osumare, a Casa Branca, o Gantois, o Opo Afonjá, o Alakétu, o Bogun, o Kwe Seja Unde, o Kupapa Unsaba e tantos outros. Eu, como Sacerdote de uma casa centenária, filho e neto de Ìyálòrìsàs que lutaram para perpetuar o Candomblé, penso que a melhor forma de rendermos homenagem aos nossos ancestrais é refletir sobre como podemos fazer para seguir os seus passos. Nós devemos nos unir, devemos juntar forças da mesma forma que os nossos antepassados juntaram para superar a escravidão, a repressão. A melhor homenagem que podemos fazer para os nossos antepassados e lutar para a defesa da nossa religião, pela defesa dos nossos direitos. Se nós conseguirmos nos unir da mesma forma como os nossos ancestrais se uniram, seremos uma religião forte, com poder de fala e, principalmente, respeitada em toda a sociedade. E nesse dia, de reflexão e devoção, eu peço a todos os nossos ancestrais que olhem por cada um de nós, que nos dê caminhos a seguir, que nos mostre o certo, que confortem os nossos corações para que possamos seguir em frente e para que, sobretudo, possamos cada dia mais, honrar tudo o que eles fizeram por nós". Casa de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

O Respeito ao Oráculo e ao Sacerdote

O Respeito ao Oráculo e ao Sacerdote
O Oráculo da Religião dos Òrìsàs é algo muito sagrado e deve ser tratado dessa forma. Igualmente sagradas, são as recomendações que o Sacerdote por meio do oráculo fornece ao consulente. Muitas pessoas, ansiosas, esperam uma breve confirmação de tudo que fora dito por meio do oráculo sagrado e caso isso não ocorra num prazo muito curto de tempo, se dão por en...ganadas. A antiga história Nago abaixo, mostra-nos justamente o contrário, que as recomendações do oráculo não ocorrem, por exemplo, no mesmo dia, pois quando isso ocorreu, o próprio Deus da Adivinhação, foi caluniado. "Òrìsà acordou cedo numa manhã e procurou Orunmilá, pedindo para que ele consultasse o oráculo, pois ele havia perdido seus três escravos (a cabra, o sapo e o camaleão). Òrìsà disse que já havia procurado por toda a parte, mas não havia encontrado. Orunmilá consultou o oráculo e disse à Òrìsà que trouxesse água quente, cascas de inhame e um ekodide. Òrìsà levou tudo à Orunmilá. Orunmilá pegou a água quente e jogou no ralo, imediatamente o sapo saiu pulando. Orunmilá pegou o Ekodide e a colocou na árvore de Akoko, imediatamente o camaleão ficou vermelho. Orunmilá pegou as cascas de inhame e jogou atrás da casa, pouco tempo depois a cabra apareceu para comer as cascas. Òrìsà ficou surpreso com tamanha rapidez como tudo fora resolvido e disse: Orunmilá, você os encontrou muito rápido, você que roubou os meus escravos". Orunmilá provou à Òrìsà que não havia roubado os escravos, no entanto, a partir desse momento, o Sacerdote deve orientar ao consulente que o mesmo deve ter paciência para aquilo que surgiu nos búzios, ocorra. Que Òsùmàrè Aráká continue olhando e abençoando todos! Ilé Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Como o Mar Tornou-se o Soberano Diante de Todos os Fluxos de Água?

Como o Mar Tornou-se o Soberano Diante de Todos os Fluxos de Água?
Uma antiga história Nàgó conta que Olokun Isemiade consultou Ifá para saber como ser o soberano entre todos os fluxos de água. Ifá disse à Olokun: "nós devemos nos recusar a sermos amedrontados pelo sofrimento; nós devemos nos recusar a sermos amedrontados por insultos; nós devemos enfrentar todas as dificuldades e insultos. Ifá ...disse que, após o sofrimento e que após os insultos, as bênçãos chegariam. Ifá disse que esse é o caminho para ele tornar-se soberano entre todos os fluxos de água". Ifá disse ainda que Olokun deveria realizar um determinado tipo de oferenda para ser o soberano. Olokun fez todas as oferendas que Ifá o orientou e assim, conseguiu aplacar os Deuses. Uma grande chuva caiu e os restos de milhares de cabaças foram parar no mar, no entanto, Olokun os aceitou e não recuou. Olokun se lembrou que Ifá lhe disse que ele não deveria se amedrontar. O mesmo ocorreu com o rio, mas o rio recuou para não receber o resto das cabaças e, nesse momento, Olokun tomou uma parte que lhe pertencia. O mesmo aconteceu com a lagoa, que recuou para não receber os restos das cabaças e Olokun tomou uma parte que lhe pertencia. Dessa forma, Olokun invadiu o rio e a lagoa, tornando-se soberano entre todos os fluxos de água! Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Casa de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Como Orunmilá Tornou-se Imortal

Como Orunmilá Tornou-se Imortal
Orunmilá estava querendo fixar moradia na terra da morte e da doença, mas como era sabedor de que ninguém podia viver lá, resolveu consultar o oráculo para saber o que deveria fazer, para que essa terra fosse boa para ele. Os Deuses lhe falaram que ele deveria realizar uma determinada oferenda e lhe disseram como ele deveria proceder diante de Iku (Morte) e Arun ...(Doença). Orunmilá fez conforme a recomendação dos Deuses. Quando ele chegou a terra, era a casa da morte, a casa da doença, e dos 16 Males. Assim que ele acendeu o fogo para poder preparar a sua refeição, Iku olhou para ele. Iku se perguntou: "Quem é esse que vai viver aqui na nossa terra"? Arun disse: "Você Iku deve ir lá saber e mata-lo, essa é a nossa terra". Iku pegou seu Opaosoro e foi onde estava Orunmilá. Quando lá chegou, Orunmilá disse: "venha, sente-se e coma da minha comida". A morte comeu e bebeu, mas a comida e bebida estavam preparadas por Orunmilá. Depois de satisfeita Iku resolvei ir embora. Orunmilá lhe disse: "Leva essa galinha para você e para seus amigos". Quando Iku retornou ele disse: "Amigos, devemos ter mais calma e não matar o forasteiro agora". Doença respondeu: "Calma? Você Iku nos pede para ter calma em levar alguém"? Doença resolveu então ir ver Orunmilá. Quando lá chegou Orunmilá lhe deu comida e bebida. Doença lhe perguntou: "As pessoas já devem ter falado sobre nós, sobre quem somos e sobre como somos, correto"? Orunmilá respondeu: "Não, ninguém me contou nada sobre vocês". Doença indagou novamente: "Então, porque você está fazendo isso conosco"? Orunmilá respondeu: "Estou fazendo o que sempre fiz com todos que conheço". A doença então disse: "Eu sou a doença, aquele que veio antes de mim é a morte, nessa terra mora a discórdia, a luta, a briga, os 16 males, mas nós o deixaremos em paz, não vamos mexer com você e com os seus". Todos que passavam por dificuldade, que estavam doentes, a beira da morte iam pedir ajuda à Orunmilá. Orunmilá após verificar se a pessoa era merecedora de sua benevolência dizia a doença e a morte para pedir que a deixasse em paz. Dessa forma Orunmilá tornou-se imortal e conseguiu cada vez mais seguidores e prestígio. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Casa de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Porque Orunmilá é o Deus da Divinação? Porque as Outras Divindades Jogam Búzios?

Porque Orunmilá é o Deus da Divinação? Porque as Outras Divindades Jogam Búzios?
Porque Orunmilá é o Deus da Divinação? Porque as Outras Divindades Jogam Búzios? Quando Orisa Nlá Oseregbo criou 401 crianças, ele também criou 401 profissões, ele também criou 401 talentos. Orisa Nlá Oseregbo disse que, cada criança deveria escolher o seu talento. Havia o pequeno Orunmilá, que por ser fraco não tinha condições de segurar uma enxada. Para ele, até segurá-la era difícil, não hav...ia trabalho fácil para Orunmilá. Orisa Nlá Oseregbo então disse que ele seria Divinador! Orunmilá perguntou: "que tipo de Divinador"? Orisa Nlá Oseregbo respondeu: "Para tudo o que as pessoas buscarem por você". Ele presenteou Orunmilá com a bolsa da divinação. Ele disse que se alguém quisesse algo, deveria ir à Orunmilá. Orunmilá perguntou: "Mas pai, e as folhas? como recomendar o que fazer"? Ele pegou e disse: "Orunmilá, se a mulher não estiver conseguindo ganhar um filho será essa folha. Se uma pessoa estiver com dores no estômago, você deverá indicar essa folha". Depois desse dia, nunca mais ninguém foi à Oseregbo saber das coisas, tudo deve ser perguntado à Orunmilá. As outras 400 Divindades também queriam o poder de Orunmilá. Mas Oseregbo lhes disse: "Ògún, você é muito forte, deverá trabalhar na lavoura, Òsóòsì é ágil será caçador e, assim com todos". Mas Osun, não deixava Orunmilá ter descanso, ela fazia com que multidões procurassem Orunmilá e insistentemente pedia para ele a ensinar, até que um dia conseguiu. Mas Orunmilá ensinou Osun a jogar com os dezesseis búzios e não com os seus Ikin. Osun então ensinou muitas Divindades a jogar, mas não todas. Osun ensinou principalmente Obaluwaiye, o dono do búzio. Ele falou: "você poderá usar os meus búzios, mas somente se me ensinar a usá-los para Divinar". Assim Obaluwaiye tornou-se um grande "olhador". Assim Osun tornou-se uma grande Divinadora. Por causa de Osun, as 400 Divindades começaram a Divinar com os dezesseis búzios. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Casa de Òsùmàrè.

Terça, 15 Janeiro 2013

Qual a razão de algumas pessoas serem calmas e outras serem agitadas?

 Qual a razão de algumas pessoas serem calmas e outras serem agitadas?
Nós do Terreiro de Òsùmàrè, preocupados com a disseminação da cultura dos Òrìsàs, compartilhamos hoje, uma antiga história Nàgó, que justifica a razão de algumas pessoas serem calmas e outras agitadas. Apesar de serem amigos, sempre existiu uma grande disputa entre Orunmilá e Èsù, para saber quem tinha mais poder. Èsù com seu ...dinamismo ficou sabendo de uma guerra em uma cidade, avisando Orunmilá, que ficou com raiva, pois mesmo sendo o Deus da Divinação, ainda não sabia do ocorrido. Ambos foram à cidade, com o objetivo de ajudar as pessoas daquela terra. Èsù, no entanto, disse a Orunmilá que, quando do retorno, finalmente saberiam quem tinha mais poder, ele ou Orunmilá. A caminho da cidade, eles pararam em um povoado muito pobre, pedindo para dormir em uma pequena casa. No meio da noite, Èsù foi ao local onde ficavam as galinhas, matou um galo e o comeu. Ao retornar para o quarto, acordou Orunmilá e disse que já deveriam ir. Orunmilá concordou com Èsù e foram juntos. Ao amanhecer, os moradores da casa onde os dois haviam dormido, se deram conta da morte do galo e resolveram ir à caça dos dois, pelo ocorrido. Após algum tempo caminhando, Èsù viu as pessoas da cidade e disse a Orunmilá: Agora veremos quem tem mais poder. Orunmilá sempre calmo respondeu: Eu tenho mais poder, ninguém vai me pegar, eu já sei que você comeu o galo daquelas pessoas. Èsù, rapidamente subiu em uma árvore, Orunmilá fez o mesmo. Os moradores, revoltados, começaram a cortar a árvore, para pegar os dois. Èsù, rindo muito disse: Agora eu quero ver quem tem mais poder Orunmilá, eles vão te pegar. Os moradores conseguiram derrubar a árvore, mas Orunmilá imediatamente se transformou em um rio e Èsù em uma grande pedra. Os homens que cortaram a árvore procuraram, procuraram, mas não encontraram ninguém. Alguns homens com muita cede, beberam da água do rio que Orunmilá se transformou. Como Orunmilá é uma Divindade muito calma e serena, aqueles homens adquiriram a característica da calma e serenidade. Por outro lado, outros homens se sentaram na pedra que Èsù havia se transformado. Esses homens adquiriram as características dessa Divindade, agitadas, brincalhonas e desafiadoras. Por essa razão que, até hoje, existem pessoas calmas (as que tomaram da água do rio que Orunmilá se transformou) e as pessoas agitadas (as que se sentaram na pedra em que Èsù se transformou). Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos! Terreiro de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Porque Obaluwaiye Usa o Azen e Porque Existe o Ewó com a Aranhola?

Porque Obaluwaiye Usa o Azen e Porque Existe o Ewó com a Aranhola?
Obaluwaiye é, sem dúvidas, uma das Divindades mais adoradas no Candomblé da Bahia, prova disso, são as incontáveis manifestações dos filhos desse Deus no mês de agosto e as segundas-feiras de cada semana. Apesar de toda essa devoção, muitas pessoas acreditam que Obaluwaiye usa o Azen (espécie de capacete feito de palhas da costa ...e búzios que lhe cobre todo o rosto), pelo fato dele ser um Òrìsà com algum tipo de deformação no rosto. Esse equívoco teve origem em razão da própria história de Obaluwaiye, na qual conta que, em razão dele ter nascido com chagas, sua mãe biológica (Nàná) o teria abandonado ainda recém-nascido à beira de uma praia. Fato é que, ele realmente foi abandonado na praia e sofreu graves ferimentos no rosto por conta das aranholas que por ali estavam. Yemoja, a grande Deusa das águas, por sua vez, ao se deparar com aquela criança, a criou como se fosse seu filho. Essa história é, ainda hoje, narrada no Terreiro de Òsùmàrè, por meio de uma cantiga, que conta essa importante ligação de Obaluwaiye com Yemoja. No entanto, muitos se esquecem de que Yemoja, por meio de uma erva sagrada, conseguiu curar todas as feridas oriundas das chagas e do ataque das aranholas, curando completamente as marcas que existiam no rosto de Obaluwaiye. Dessa forma, fica a questão: "se não há feridas para esconder, porque Obaluwaiye usa o Azen"? Em verdade, além da sua inconteste ligação com a terra (afinal, Obaluwaiye é o dono da terra, à exemplo de Onilé) ele também é um dos donos do sol. No Candomblé, acreditamos que o brilho do sol que reflete do rosto de Obaluwaye é tão intenso, que é necessário que o mesmo seja coberto com o Azen. Além disso, o Azen devidamente preparado pelo Sacerdote ou pelo Asogba, tem o poder de controlar as forças de Obaluwaiye, que são intangíveis e perigosas. Em razão disso, Obaluwaiye não usa outro tipo de adereço que não seja o Azen, sendo então, vedada a utilização de Ades e/ou máscaras. Isso explica, ainda, a razão do grande interdito acerca da Aranhola. Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos. Casa de Òsùmàrè

Terça, 15 Janeiro 2013

Babalòrìsà e Ìyálòrìsà: Babalòrìsà e Ìyálòrìsà: o Sacerdócio Igualitário no Candomblé

Babalòrìsà e Ìyálòrìsà: Babalòrìsà e Ìyálòrìsà: o Sacerdócio Igualitário no Candomblé
Ao longo dos anos, o pensamento de que o homem possui uma importância menor no Candomblé frente à mulher, foi muito difundido. Isso foi reforçado, pelo fato de muitos terreiros tradicionais, durante décadas, não iniciarem homens Adosù e, permitindo que a única figura masculina nas Casas de Candomblé, fosse a dos... Ogans (não Adosù). Muitos creem que o surgimento dos homens Adosù e Babalòrìsàs, foi fruto de uma mudança cultural, ocorrida nos últimos 20 anos. Sobre isso, o objetivo desta publicação é elucidar que, em verdade, tanto o homem quanto a mulher possuem o mesmo grau de importância no Candomblé. É ainda, esclarecer que, a figura do Sacerdote Homem (Babalòrìsà) existe desde a fundação da Religião no Brasil e, muito antes disso, no próprio berço da cultura dos Òrìsàs, a África. Antes de tudo, é importante salientar que não é o sexo que difere a importância de uma pessoa na Religião dos Òrìsàs, mas sim, o grau hierárquico que essa pessoa possuí. Assim, o que confere a uma pessoa a distinção hierárquica na sociedade religiosa, é o título sacerdotal e não o sexo. A estrutura do Candomblé do Brasil foi fundamentada e edificada, tendo como a figura máxima do terreiro àquele que zela pelo Òrìsà, que em idioma yorùbá é a Ìyálòrìsà ou Babalòrìsà (Mãe ou Pai que zela pelo Òrìsà). Na África, por exemplo, existe a figura do Arabá, título masculino não existente nos tradicionais Terreiros de Candomblé da Bahia. A consagração de uma Ìyálòrìsà ou Babalòrìsà ocorre da mesma forma, sendo necessários os mesmos predicados para ambos. Sendo eles: Iniciado (Adosù), ter concluídos as obrigações de 1, 3 e 7 anos e, principalmente, ter recebido essa missão pelo Òrìsà (ou seja, isso deve estar no seu destino e não em sua vontade e como já discorrido em nossas publicações, somente a obrigação de 7 anos, não confere à ninguém o cargo de Sacerdote/Sacerdotisa). Dessa forma, quando um homem recebe um título de Babalòrìsà ele está em igual posição sacerdotal de uma Ìyálòrìsà (não há distinção). O que existe em nossa religião, é a condição cronológica ou como versado nos Terreiros aqui de Salvador "Idade é Posto". No entanto, esse ditado se refere quando ambas as pessoas (independente do sexo) possuem o mesmo título Sacerdotal (posto). O Sacerdote/Sacerdotisa, possuí posição igualitária, no entanto, o mais velho sempre terá o maior respeito (nessa visão a idade prevalece). No início da abordagem desse tema, mencionamos que o Sacerdote homem, existe desde a fundação da Religião no Brasil e mesmo antes, na África. No berço da cultura dos Òrìsàs, sempre existiu a figura do Babalòrìsà, do Babalawo e do Arabá (supremo sacerdote masculino). No Brasil, contrário do que muitos acreditam, a figura masculina sempre existiu e com grande destaque. Na fundação das mais antigas e tradicionais Casas de Candomblé os homens (Sacerdotes) estavam presentes, com importância singular na formação desses Terreiros. Podemos exemplificar, com alguns dos nomes mais venerados e ainda hoje reverenciados nos Ipade dos Candomblés da Bahia, tais como; Gbongbose Obitiko e Baba Asesu Bérégédé (que tiveram importância singular na fundação do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho), Okarinde (no Terreiro do Gantois) e Oje Lade – Martiniano Eliseu do Bonfim, no Ilé Asè Opo Afonjá. Isso, sem mencionar Talabí, o fundador do Terreiro de Òsùmàrè e, por exemplo, o aclamado Manoel Bernadino da Paixão, que fundou o Terreiro do Bate-Folha. Isso evidencia de forma muito clara, que o homem sempre esteve presente no Candomblé da Bahia. Fato é que, na Bahia, as mulheres negras, tiveram ascensão social mais precoce que os homens, contribuindo de forma decisiva para o seu posicionamento religioso. As mulheres, antes dos homens, conseguiram acumular bens (na grande maioria das vezes, em razão da venda em escala de quitutes), permitindo-lhes a edificação dos Terreiros. Para os homens esse processo foi tardio, contribuindo para o cenário de distinção. Apesar dessa diferença social à época, a importância do Sacerdote masculino sempre existiu, prova disso, conforme mencionado anteriormente é a evocação desses nomes no Ipade. Lembrando que, os ancestrais (Esá) saudados nessas cerimônias, invariavelmente são de pessoas iniciadas (Adosù), sejam elas mulheres, sejam homens, como os já mencionados; Esa Oburo, Esa Asesu Bérégéde, Esa Okarinde, Esa Danjemi, dentre muitos. Desse modo, podemos afirmar que, no Candomblé, não existe diferença de grau sacerdotal em razão do sexo. Existem sim, alguns cultos específicos que a liderança masculina ou feminina prevalece à outra, mas isso, em cultos específicos, tais como Egúngún, no qual o homem é o Sacerdote Supremo (Alapini) ou nas Sociedades de Culto às Ìyàmì, Òsun ou Obà (Eleeko), nas quais as mulheres são as grandes matriarcas. Assim sendo, podemos dizer que o Candomblé talvez seja, uma das poucas religiões, na qual o homem e mulher, desde que com o mesmo titulo hierárquico, possuem a mesma importância diante do clero. Mostrando que, há séculos, já pregamos a igualdade. Nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos uma vez mais, ter contribuído com o esclarecimento da cultura dos Òrìsàs no Brasil. Que nosso patrono, Òsùmàrè Aràká, continue sempre olhando e abençoando todos com vida longa com saúde! Terreiro de Òsùmàrè Salvador – BA

Terça, 13 Novembro 2012

Sàngó Ensina Aganjú a Controlar o fogo

Sàngó Ensina Aganjú a Controlar o fogo
Hoje, vamos contar uma história de Aganjún, Divindade da Família de Sàngó. Aganjú é o Òrìsà da força, deidade do sol e dos vulcões (Obá Aganjú Oniná Oke - "Rei Aganjú, lava das montanhas..."), ele é a força em chamas que emerge da terra. Aganjú passava por sérios problemas em seu reinado (vizinho à Òyó), sabedor disso, Sàngó o procurou, afim de "ajudá-lo". Próximo às terras de Aganjú, Sàngó ouviu vozes e, se escondeu entre as árvores, objetivando observar o que estava acontecendo. Ficou espantado ao ver um homem em chamas, era Aganjú. Ao lado dele estava Òsun, que com a sua água doce, tentava acalmar aquele homem em chamas. Aganjú estava muito nervoso, afinal, seu reino estava em decadência, não obstante, percebeu que havia alguém lhe olhando e, nervoso, indagou quem era. Sàngó mostrou-se, dizendo: "Sou Sàngó, o Aláàfìn Òyó". Irritado, Aganjú perguntava quem lhe havia dado permissão para entrar em suas terras. Sàngó disse que não precisava de autorizações, sendo ele o rei de Òyó. Cada vez mais furioso, Aganjú disse: 'Você não sabe a que perigo está se expondo com tanta ousadia! Sabe que posso transformá-lo em cinzas agora mesmo?". Rindo, Sàngó disse que se quisesse poderia transforma-se em fogo também. Intentando alarmar Aganjú, Sàngó se tomou por fogo, mostrando o seu poder e dizendo que queria apenas ajudá-lo. Aganjú, então, questionou de que forma Sàngó queria lhe ajudar. O rei de Òyó disse que poderia lhe ensinar a controlar seus poderes, sendo que Aganjú, acabava por queimar todos àqueles que se aproximavam e, que poderia ser uma espécie de "porta voz" do seu povo. Desconfiado, Aganjú perguntou porque ele estava fazendo isso; Sàngó disse que temia que os problemas chegassem à Òyó e por isso estava se prevenindo. Òsun, que continuava jogando água em Aganjú, percebia que aquela não era a verdadeira intenção de Sàngó. Aganjú disse que aceitaria a oferta de Sàngó, mas perguntou qual o preço que teria que pagar por isso. Sàngó, por sua vez, disse que não havia necessidade em lhe pagar, no entanto, deveria, a partir daquele momento, utilizar todas as ferramentas de Sàngó, tais como Osé e o Séré. "Desse modo, seu povo, ao ver em minhas mãos as mesmas insígnias usadas por você, não contestará a minha autoridade e, reconhecendo os atributos, acatarão as ordens que a eles eu irei transmitir, afirmou Sàngó". Aganjú indagou a opinião de Òsun, que já flertava com Sàngó. Òsun disse acreditar ser um bom negócio, podendo desta forma, restabelecer a ordem em seu País. Diante disso, Aganjú aceitou a proposta de Sàngó e recebeu do Aláàfìn de Òyó um Séré e um Osé. Feito isso, Sàngó impôs no reinado de Aganjú o seu regimento e, Aganjú por sua vez, começou a utilizar-se das ferramentas de Sàngó. Anos depois, Aganjú tornar-se-ia também um Aláàfìn Òyó. Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!! Ilé Òsùmàrè Aràká Asè Ògòdó

Terça, 13 Novembro 2012

Dàda Bàayànì Àjàkú, o Filho de Òrànmíyàn e Ìyá Mòrèmí

Dàda Bàayànì Àjàkú, o Filho de Òrànmíyàn e Ìyá Mòrèmí
Antes de Ìyá Torosí, Òrànmíyàn casou-se com Ìyá Mòrèmí e com ela teve um filho, cujo os cabelos nasceram em tufos, era Dàda Bàayànì Àjàkú. Dàda (Àjàká), que também foi um Aláàfìn Òyó, irmão de Sàngó, era um rei muito calmo e pacífico e sua personalidade não permitiu-lhe ser um grande comandante. Aproveitando-se disso, Sàngó apossou-se do reinado de Òyó, tornando-se Aláàfìn. Dàda Bàayànì Àjàkú, passou, então, a reinar um povoado próximo de Òyó. Envergonhado com o seu despojamento, Dàda passa a usar uma coroa que lhe cobre todo o rosto (Adé Bàayànì), a qual tiraria apenas quando reconquistasse seu lugar em Òyó. O reinando de Sàngó durou exatos sete anos, nesse período, ele foi um governante cruel, sendo chamado de aterrorizador (Èrùjèjè), desta feita, Sàngó abdica do trono de Òyó e se refugia em Kòso, lugar onde ele desaparece aos pés de um Igi Àyàn. Um provérbio yorùbá diz: "De Wole Nira Oya, Ni Kòso Do Wole Sàngó" ("Oya adentrou à terra em Irá e Sàngó adentrou à terra em Kòso). Isto posto, Dàda Bàayànì Àjàkú retomou o reinado de Òyó, governando a cidade até sua morte. Posteriormente, Aganjú seu filho, torno-se o novo Aláàfìn. Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!! Ilé Òsùmàrè Aràká Asè Ògòdó
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